segunda-feira, 29 de abril de 2013

A CRÔNICA ENGARRAFADA


César Ancelle-Hansen




A mulher do lado já é minha primeira leitora. Eu ficaria mais lisonjeado se essa crônica já estivesse pronta – Até a entendo – e a perdoo; eu também espiaria se o meu vizinho estivesse escrevendo ou lendo algo nessa sala de recepção, que é um lugar anti-tudo e pró-tédio, essa e qualquer outra. Agora esse texto tem de sair: É um belo café, está vazio e mal iluminado. Um local fértil para o nascimento do grande texto, para os maiores delírios vanguardistas e os incríveis arroubos poéticos (aqueles que só a minha pretensão juvenil julga que sou capaz). Só que percebo algo estranho no ar, me sinto... Observado! Observado pelas moças que aqui trabalham, e imagino o que será que elas pensam desse que vos escreve? Será que esses olhares desconfiados em minha direção, são por me julgarem um assaltante que anota seus horários, entradas e saídas? Ou creem que sou algum fiscal dedo-duro? Penso tudo isso ainda mais agora, que sentou um cidadão por nome de segurança no balcão a minha frente. É uma cidade inimiga do cronista e da imaginação... E eu não quero falar mais uma vez mal dessa cidade, mas ela me provoca, insiste, e insisto eu daqui. Estanco e pago os dois cafés com leite (frios) que pedi e invento uma ligação para uma amiga, que ao me ler agora ficará com raiva por ser personagem e desculpa para minha fuga.


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Volto ao trabalho. E percebendo uma brecha, recomeço essas linhas – que torço para não virar a insossa crônica coxinha, ou mesmo a crônica punheta nossa de cada blog. Ao que, um cliente que me vê rabiscar, pergunta se estou escrevendo uma carta de amor, respondo que todo o ato de se escrever numa folha sempre é uma carta de amor: Ainda mais hoje onde tudo é inimigo do infeliz que escreve. O moço ainda quer saber para quem escrevo; invento que é para uma moça de nome Jasmim, com sardas no rosto e perdida num supermercado dentro de meu último sonho. Ele sorri e me deseja boa sorte. É uma maldição continuar essa carta/conto/crônica/masturbação literária, que nem sai mais o que está virando e que só irá servir para que eu me envergonhe no futuro.


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Em casa, minha mãe me oferta chocolates. E uma paz tremenda me dá, ao recebê-los de suas mãos deixo cair um pedaço no chão, e aquele desgesto reflete o meu dia: Um derrubar sucessivo de gestos, sorrisos e inspirações... Foi assim na conversa com meu porteiro pela manhã, no encontro que desmarquei com um amigo, no telefonema que não fiz, naquele “largo as nove” da moça da loja que eu não respondi, nos parabéns que não dei, na carona que deixei de ofertar e na frase que eu iria colocar aqui como último exemplo... Não resisto, e numa tentativa de desfazer os nãos do dia, recolho do chão o pedaço de chocolate e como, não sem antes soltar a frase mais inspirada do dia: “Não tem problema mãe, só pisa gente conhecida por aqui mesmo”. Ela não sorri (o que me parece obvio) - e nem isso fui capaz. E fecho o caderninho vermelho.


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Agora, volto a esse ou volto a mim. E nessa madrugada que me invade, escrevo no computador, nesse ser mais sem lirismo do que eu, ele, que me insiste em corrigir com seus traços vermelhos e verdes. Espero que ele falhe, assim como eu. Escuto agora um farfalhar de garrafas. É um homem que corta a madrugada e o meu parco devaneio, vejo de minha janela carregando dois sacos nas costas, cheios de tilintar, cheios de garrafas e cheios de silêncio como eu e esta noite que ele rasga, não faço nada, permito que ele me leve todas as garrafas, que seja. Ele olha para trás, e não me vê que eu o vejo e o descrevo; assim como ele, me permito essa hora roubar também, e roubo de alguém ou de tantos: A imagem do naufrago escrevente de cartas depositadas em garrafas. E me aposso de uma das garrafas do homem. Apenas uma, onde depositarei essa crônica que espero que alguém a resgate, contendo meu pedido de perdão – Pois fracassei.

Cid Brasil

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