quinta-feira, 24 de setembro de 2020

PAPAGAIOS NA IDADE MÉDIA

  



Dia desses morreu Tancredo, o papagaio de uma senhora aqui do prédio. Provavelmente a causa mortis do papagaio seja saudades do antigo dono que partiu dessa para uma melhor no começo de 2020. – Aliás, qualquer outra partida deve ser melhor do que continuar encarando 2020, imagino eu.

Mas o último vôo (papagaios voam?) de Tancredo foi uma boa notícia para o nosso bairro, já que a ave tinha o desagradável hábito de toda a manhã ficar catalogando os moradores que passavam na calçada em frente a sua varanda. “Feioso!” ou “Bonito, bonito!”. Seriam papagaiadas ensinadas por seus donos, talvez? Além de desfiar toda uma leva de sortidos palavrões.

Da minha janela não conseguia bem ver a reação das pessoas ante a apreciação estética de um papagaio preso a uma corrente num poleiro velho. Somente uma vez ouvi alguém responder: “É mãe!”.

Por falar nelas, a minha julgou que o padecimento de seu emplumado vizinho era algo digno de um obituário. Não sei se o mesmo ocorre com os amigos escritores, mas sempre que morre algum conhecido minha mãe me cobra algumas linhas, alguma homenagem ou parafraseando Drummond alguma poesia, embora na maioria das vezes eu atue como o Tancredo e diga somente se o indíviduo em questão era “feio”, “bonito, bonito!” ou “bandido!”.

 

-- O irmão do seu pai, o Tio Aracy, lembra? Era um baita personagem... Faleceu, coitado.

-- Mãe, o cara casou com a própria sobrinha que ele ajudou a criar!

 

-- Aquele velhinho que ficava na esquina da padaria morreu... Tadinho... Merecia uns versinhos, né?

-- Que nada! Não podia passar uma mocinha por ali que ele ficava mostrando a língua e falando putaria...

 

-- Meu gato morreu. Lembra com ele era diferente. Valia uma crônica!

-- Ele só fazia xixi fora da caixinha de areia... E a senhora já não o suportava mais.

 

Creio que foi Alejandro Zambra quem disse que você só se é escritor de verdade quando as pessoas (seus pais?) o veem escrevendo e não mais o mandam comprar o pão. Talvez por me negar a escrever sobre Tancredo fui obrigado a ir até o supermercado.

Na quarta vez que tenho que mudar de calçada para evitar cruzar com alguém sem mascara, dou meia volta e retorno para casa, arrependido de não ter feito amizade com a Dona do Tancredo para lhe ensinar a dizer da janela: “Cadê a mascara, seus arrombados?”.