domingo, 26 de novembro de 2017

ELES NÃO USAM TACTEL




Da fauna e flora presente nos shopping centers da vida, descobri que a espécie que mais gosto é a dos vendedores das lojas de surfwear, afinal, num ambiente elitista e blasé como são os shoppings, essas crianças crescidas sempre abertas a qualquer papo, fogem dos típicos muzaks da concorrência e acabam por ser verdadeiras brisas em meio ao ar refrigerado do capitalismo ordeiro e presente.

Não tenho nada contra grandes centros de compras modernos, que fique bem claro – apesar de terem abolido o vaporwave das caixinhas de som e de cobrarem caro pelo estacionamento – mas dia desses foi preciso mergulhar fundo nos bulevares fakes para procurar uma sunga de natação nova, já que a minha entrou naquela fase de transparência que tanto faz se você vai nadar pelado ou com ela. Mas também não podia ser qualquer sunga, a escolhida teria de se encaixar nos seguintes quesitos antes de envolver meu corpo:

Que fosse preta ou azul escuro e não custasse mais de cinquenta reais; que não tivesse uma estampa parecendo uma externa de um filme do Brian de Palma; que não fosse muito angulosa ao ponto do meu pênis parecer duas castanhas equilibristas, nem que fizesse me sentir um stripper aposentado.

(Que os anos 80 foram um grande equívoco todos nós já sabemos desde que o primeiro roqueiro optou por partidos conservadores ao invés de overdoses como causa mortis, mas foi espantoso notar que no próximo verão será impossível não parecermos figurantes de uma novela estrelada por Nuno Leal Maia tamanha a convexidade das cuecas de praia que vem aí.)

Sem muito horizonte naquele mar de gente (era domingo a noite) me vi compadecido da nudez de uns peixinhos na vitrine de pet shop, enquanto meia dúzia de crianças e pais se derretiam por um beagle a espera da fiança, o que me lembrou da história contada por Zeca Pagodinho de que todas as vezes que bebia em shoppings acabava comprando um cachorro de três mil reais por puro dó. Creio que não é por acaso que as pet-lojas ficam sempre perto da saída.

No reflexo do aquário notei o loop de uma onda quebrando e o logotipo de uma boutique de Surf. Nadei, digo, caminhei para lá, já sem folego ou sem esperança, movido apenas pelos motivos florais e pelo apelo da dita onda sendo repetida em três TVs tubos.

Um rapaz com ares de Salsicha do Scooby-doo perguntou se podia me ajudar. Não me olhou dos pés a cabeça como manda o manual dos vendedores, encarou-me nos olhos e tocou em meu ombro. Mais do que um cliente notei naquele vendedor a falta de uma tia ou avó que lhe tomasse conta. Era um legitimo remanescente dessa classe operária que preza por tipos com voz de menino dentro de um corpo de adulto. Aquilo me comoveu. Foi como ver um homem da renascença – ou um astronauta, igual naquelas cenas de Além da Imaginação.

Falei meu drama por um trapo decente que me cobrisse as partes e ele prontamente sacou de uma gaveta o que eu tanto buscava. O pano ideal para minhas imperfeições. Cor, elasticidade, preço, durabilidade. Tudo perfeito não fosse um enorme logo na parte frontal, quando ele a virou. Mesmo assim provei, incomodado por carregar um outdoor na virilha. Abri a porta do provador e questionei, sentindo-me um Marx de tanguinha:

E essa farra do capitalismo aqui?

Ah, ninguém liga pra isso… É um detalhe pequeno.

Era mais fácil minha pele desbotar no cloro da piscina do que aquela sunga. Pensei ainda em falar que já levo nomes, referências e placas demais na alma para estampar aquilo no corpo deliberadamente. Voltei ao provador, tirei a peça publicitaria, me vesti e como desculpa soltei a velha carta dos fracos, a de ir dar mais uma olhada por aí, porém ele me desarmou só com um gesto. Ao devolver a sunga para a gaveta parecia um soldado derrotado dobrando uma bandeira na qual só ele acreditava, murmurando para si mesmo que era uma pena. Foi quando o ouvi dizer, como se consolasse uma criança preterida no orfanato:

Ah, mas QuikSilver é QuikSilver…

Ao escutar seu lamento, foi como se pulasse os cincos segundos de propaganda e um vídeo rolasse diante de meus olhos exibindo parte das pequenas tragédias daquele vendedor: O subir e descer de escadas até o estoque; as doze horas diárias inclusive nos domingos; a tentativa de agradar metade da cidade que jamais pisará numa prancha de surf; a realidade mesquinha e opressora de vendas, comissão e pechinchas…

Baixei a vista para disfarçar o cisco que caíra em meu olho ante o seu tão digno e doloroso “QuikSilver é QuikSilver”, era uma rara demonstração de fé, de crença num mundo cada vez mais ágil, oco e incauto. Se ainda há alguma tradição nos Shopping Centers ela está aqui, vestindo bermudas de tactel, boas e velhas camisetas com estampa nas costas e um boné de aba reta. Saí da loja mais nu do que entrara.

“QuikSilver é QuikSilver”, era como um pedido de resgate. Era o “nunca mais, nunca mais, nunca”. Comprei pipoca, tomei sorvete, tentei achar alguma ficha no chão do fliperama e meu corvo pessoal roendo-me a alma. “QuikSilver é QuikSilver”. Voltei lá.

Vai levar a sunga? Perguntou o vendedor tirando a franja dos olhos.

Não. Eu… – e percorri com os olhos uma saída que não me envergonhasse tanto – e aquele chaveiro, ali? – apontei.

É QuikSilver também, vai levar? É ótimo pra chave do carro, da casa…

Quando concluímos a compra de seis reais por um chaveiro em forma de chinelo, ele me levou até a porta e comentei que os manequins de Surf Wear eram os últimos que ainda sorriam comparado as outras vitrines.

Ih… É mesmo! Disse o vendedor gargalhando mais que o boneco. É o Giva, o nome dele… Completou apontando para a gengiva do manequim.

Giva usava uma camisa da QuikSilver e uma bermuda de tactel cuja estampa era um afresco da fachada da própria loja. Pensei em fazer como num conto de Borges e me procurar dentro da estampa da bermuda e talvez ali encontrasse alguma verdade secreta do mundo ou minha tão sonhada sunga, mas estava lívido, havia ajudado alguém. Até a voz dentro de mim mudara, dizia que eu era especial e que o fim do expediente estava previsto para dentro de cinco minutos.

Texto originalmente publicado em 11 de setembro de 2017 no site da REVISTA DOS ESCRITORES MUITO ANÔNIMOS (EMA)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

ENEM





Sempre digo para os meus alunos – que na verdade não passam de uma meia dúzia de moscas acima da minha cabeça: Não testem demais a paciência de seus leitores-ouvintes.

Antes de tudo, ou antes de nada, é necessário falar de duas pessoas e do que eles fizeram, primeiro é Georges Perec, o escritor francês, que entre outros quebra-cabeças literários – vamos chama-los assim – ficou famoso por escrever sobre o que ocorre quando não ocorre nada (é famoso sua tentativa de, ao sentar por alguns dias num café de Paris, narrar tudo aquilo que ocorria a frente dos seus olhos: o movimento das nuvens, a placa dos carros, as roupas das pessoas... “O que ocorre quando não ocorre nada”). E também por suas listas.

Uma dessas listas Perequianas é uma sobre tudo o que ele lembrava desde a infância, intitulada “Eu me Lembro”. E a outra é uma catalogação de tudo o que ele comeu durante um ano, entre sólidos e liquidos. 

O segundo personagem convocado aqui é Fu-Manchu. Para quem nunca ouviu falar, Fu-Manchu é aquele típico vilão japonês que aparece em um meio mundo de filmes B, tem longos bigodes e leva esse nome quando roteirista não que pensar muito ao descrever um antagonista asiático. É um desses nomes que servem para dar rosto a alguém sem rosto, vamos dizer assim. Você leitor, pense num japonês vilão de filme. Pronto! Chama-se Fu-Manchu.

Um conselho que meu Tio Avellar sempre me dava era: Na hora de escrever, tenha calma, pois uma hora a prosa aparece. Seria normal e até corriqueiro ele dizer isso se não fosse analfabeto. 

Dia desses, pensei muito nele e no seu analfabetismo crônico quando me vi sentando numa sala de aula para prestar o vestibular sem nem saber direito o porque e para que eu me punha a prova naquele teste, então, com medo de sair de lá preso por me movimentar ou me angustiar demais passei os sessenta minutos antes da prova iniciar impedido de fazer qualquer coisa que não pensar ou comer, conforme as regras desse jogo chamado ENEM. 

Sessenta minutos completamente preso dentro da minha caveira, como dizia David Foster Wallace.

Durante aquela hora no exame pensei muito em Georges Perec, ou no que Perec narraria se ali estivesse confinado sem poder fazer nada exceto se coçar ou comer uma maçã. Depois de um pequeno ensaio imaginário sobre esse tema, que infelizmente esqueci, assumi meu papel de turista naquela sala de aula e decifrei as pinturas rupestres de minha caverna particular.

Coisas e códigos escritos na minha banca de colegial pelos alunos do Colégio Estadual Ovidio Edgar: O escudo do Clube de Regatas Brasil; um rosto japonês, com longos bigodes, que apelidei de Doutor Fu-Manchu; dois pênis que mais pareciam borboletas espetadas; uma tentativa de elaborar algumas letras japonesas ou componentes do alfabeto japonês, que imagino terem sido obras do mesmo autor do Fu-Manchu; diversas colas matemáticas e químicas; uma gabarito: 1-B, 2-C, 3-A (que fiquei tentado a copiar na minha prova, julgando ser ali um sinal divino ou de meu amigo Fu-Manchu)...

Coisas e códigos escritos nas paredes da sala de aula: o nome “Igor”, escrito em várias caligrafias e com vários tipos de caneta, certamente derivações do mesmo meliante para burlar as autoridades locais pedagógicas; um número de telefone repetido também diversas vezes; uma vagina cabeluda acompanhada da frase: “Essa é da tua mãe”; Um chiclete colado na parede moldado em forma de lagartixa.

Coisas que pensei durante o Enem: Numa xícara de café com leite; na minha namorada; em como era benéfico estar em silêncio, sem celular para criar algo. 

Vendo todas aquelas manifestações contra o tédio nas paredes e bancas, tentei imaginar o que um extraterrestre pensaria ou que impressões poderia ter de nós algum viajante do futuro ao encontrar aquele pedaço de carteira cheia de palavrões e genitálias. Pensariam que somos fornicadores empedernidos? 

Lembrei de Enrique Vila-Matas, outro Perequiano, que disse que provavelmente os E.Ts só se espantariam com a humanidade ao descobrir que metade de nós raspa a cara pela manhã enquanto outra metade não.

Até hoje não sei quanto tirei ou se passei em alguma coisa.

terça-feira, 21 de março de 2017

MEU POLYSTANTION PESA UMA TONELADA





Segundo o wikipedia, doppelgänger é uma linda palavra alemã que significa, em termos bem pobrinhos, sósia, cópia, um player two que anda por aí fazendo coisas erradas – ou certas, dependendo se você for o vilão do jogo. “Interpretado pelos místicos como sendo uma criatura sobrenatural”, diz a Barsa da Internet, “uma cópia espiritual ou então um gêmeo demoníaco que traria confusão à vida da pessoa”. Confusão. O motor de livros, ratos e homens. 

Na literatura, das seis ou sete tramas que mais se repetem a campeão talvez seja aquelas que narram uma procura por duplos, por gêmeos, por respostas através do espelho onde a mensagem que pisca ao final é mais ou menos igual a dos fliperamas: Insert Coin. Insira uma ficha para continuar...

Um dos primeiros doppelgänger que tive o desprazer de conhecer foi o famigerado Polystantion, o irmão Franksteniado de um dos videogames mais populares do mundo, o Playstantion 1. O original rodava games de última geração com qualidade gráfica de 32 megabytes em CD’s Rooms. Já o seu Mister Hyde só recebia cartuchos de 8 bytes, cópias das cópias do Nitendinho, jogos tétricos que não distraiam nem um garoto cego.

Milhares foram as crianças educadas na dor e no desespero ao se depararem com o Polystantion em cima da cama ao invés do primo rico da Sony®. Semelhantes a esses melancólicos, cuja primeira aula sobre a vida e suas derrotas veio através da pirataria, milhares também julgaram estar fazendo um grande negócio ao comprar o amor de uma criança por cinquenta reais na feira, ou no vale das sombras da infância. 

O meu pai quase, quase, foi um desses, mas ele, nesse Mortal Kombat dos equívocos conseguiu a proeza de se superar. Foi numa tarde cheio de guaraná alcoólico na sua unidade de comando que ele telefonou para minha escola dizendo que tinha comprado (arroto) o videogame (arroto) que eu tanto (arrotinho) queria. No auge dos meus mal vividos e bem cariados doze anos aquela ligação foi uma das grandes emoções que tive. Mas como cada fase sempre é precedida por uma mais complicada... 

Meu pai sabendo da insanidade que era presentear uma criança com um Playstantion foi logo advertindo no telefone: Era usado o game e não pode vir com os controles; admitiu que o conseguira como parte de uma divida antiga com seu irmão, meu tio. E eu, do outro lado da linha quente, pensei logo em Fabinho, meu primo. Pensei no dinheiro que meu tio, pai de Fabinho, devia para o meu velho e pensei nos dois videogames que Fabinho tinha. Um Poly e um Play. Algo como ter um celular lanterninha para os ladrões e um Iphone para exibir.

Fabinho tinha o Super-Homem e o Bizarro dos videogames. Torci, enquanto corria para casa, para que meu pai houvesse (roubado) pego a Coca-Cola e não a Astral-Cola virtual.

O abraço paterno e a declaração de amor incondicional podiam esperar. Abri a porta do quarto e aquela brancura plástica de ficção-cientifica, estava lá, reluzindo em cima da cama, metamorfoseado numa... Sanduicheira grill, modelo bello pane, da Britânia®. 

Meus tios eram desses que exibiam tudo de valor na estante da sala e na correria, com umas a mais no seu processador, meu pai confundiu tudo que vinha com um fio elétrico e acabou pegando o que mais brilhava na estante.  

Game over.
Cid Brasil