domingo, 27 de julho de 2014

ROMEU


(Seyo Cizmic)



1 – Todos tinham entre dezessete e dezoito anos. 2 – Estudávamos juntos. 3 – Eu era o mais velho, tinha dezenove. 4 – Havia um professor que dava aulas embriagado. 5 – Para nosso azar, era o de matemática. 6 – Detestávamos matemática. 7 – Adorávamos o professor. 8 – Pelo menos a parcela que não dava a mínima para o vestibular. 9 – Nessa época eu lia toda e qualquer porcaria que me caísse nas mãos, e o da vez eram as memórias de uma prostituta. 10 – Roubei esse livro numa loja estranha do shopping que se dizia livraria. 11 – Li em dois dias, para meu próprio espanto. 12 – E besta como era, inventei um autografo da autora dizendo assim: Para Alcides, um de meus melhores clientes. 13 – Depois que li, soltei-o na sala de aula. 14 – Até hoje o livro da prostitua foi a única leitura da maioria de meus colegas de sala. 15 – Não sei se me orgulho ou lamento por isso. 16 – Meu melhor amigo nesse período era um rapaz chamado Romeu. 17 – E ele é dono de boa parte de minhas lembranças daquele ano. 18 – Tudo porque um dia me disse ter dado uns beijos na professora de inglês. 19 – Ela tinha trinta e seis anos. 20 – Os beijos foram maneira de dizer, afinal isso não é nenhuma crônica de Carlito Lima. 21 – A professora era nova em Maceió. 22 – Era casada. 23 – E detestava profundamente o marido, por motivos que tanto eu, como Romeu, que nem tínhamos idade para amar ou odiar ou entender tudo isso, desconhecíamos. 24 – Era dezenove anos mais velha que meu amigo, mas creio que já falei isso. 25 – Ela ficava todo o intervalo, em um canto, longe de outros professores, fumando. 26 – Romeu um dia foi até ela. 27 – Romeu só sabia ouvir nessa época. 28 – E foi o que bastou. 29 – Só acreditei nesse romance quando meu amigo mostrou as mensagens e os e-mails que ela enviava para ele. 30 – Hoje percebo que ela era bem sozinha. 31 – Era uma grande pessoa Romeu, mas não sabia juntar duas frases de forma coerente. 32 – Mas a professora parecia não querer respostas. 33 – Não as de um ser humano de dezessete anos. 34 – Nessa idade o poder reside muito mais na própria idade do que em qualquer outra coisa. 35 – Graças a deus são poucos os jovens que sabem disso. 36 – Se meu amigo fosse desses, teria sido a ruína de nossa professora de inglês. 37 – Pois até roupas novas e um corte de cabelo moderno ela pagou para Romeu. 38 – Nesse período nossa amizade ficou sendo relegada aos nossos encontros em sala de aula. 39 – O que é o mesmo que nada. 40 – Quem acreditou na duração das amizades colegiais, sabe do que estou falando. 41 – Não sei como, todos na sala começaram a comentar. 42 – A tarefa de assessor de imprensa do casal acabou sobrando para mim. 43 – Que tratava de desmentir tudo da forma mais categórica que podia. 44 – Uma noite Romeu me telefonou desesperado, pedindo que eu fosse até sua casa. 45 – A professora escrevera no e-mail: Não sei o que estou fazendo da minha vida, mas se for para errar, prefiro que seja com paixão. 46 – Logo abaixo ela dizia que só bastava Romeu dizer que sim, que ela pediria o divórcio. 47 – Ou seja, pedia resposta. 48 – Mas também não falava que queria casar ou morar com meu amigo. 49 – Isso tive que traduzir para ele. 50 – Romeu chorou bastante essa noite. 51 – É triste ver um amigo chorar e você não conseguir chorar junto. 52 – Ele disse que estava com medo. 53 – E que para ele, já bastava. 54 – Quem escreveu o pedido de dispensa daquela matéria para Romeu fui eu. 55 – Ficamos dois dias apreensivos, pensando que a professora se suicidaria. 56 – Para nossa sorte ela apareceu, como em todas as quintas. 57 – Agradeci profundamente aos céus, por ser dezembro aquele mês. 58 – E nosso último ano colegial.

Cid Brasil

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Cid gostei bastante desse texto.
    Fiquei apreensivo como vocês dois, esperando o final do texto para ver no que daria essa história.
    Ao ler sobre a professora me veio de imediato na memória imagens das mulheres de Edward Hopper... Essa solidão, a cama, a mesa para uma pessoa, o olhar a espera de alguém que salve alguma coisa dentro de si.
    Salve a segunda crônica! Tenha uma boa semana.
    Abraços

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  3. Bruno, que joia sua visita! -- Não sei se fico mais besta com ela ou com a
    a COINCIDÊNCIA de você falar do Hopper, pois quase (quase)
    eu ilustrava esse texto com uma pintura dele. E seria essa aqui:

    http://37.media.tumblr.com/0d1f70d0da1a26e590e4f1cc4b1cc985/tumblr_n94jdmNx8i1r1jmv0o1_1280.png

    Mas é bem por aí sim e agora me arrependo de não tê-la escolhido, hahaha.
    Essa noite até sonhei com essa minha turma de colégio, mas infelizmente Romeu não aparecia. Talvez ele estivesse no pátio, ouvindo nossa professora.

    Um abração daqueles de chegada em rodoviária que só agente sabe trocar.
    Fique bem!
    Cid

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