(Atul Bhalla) |
Eu sempre achei que quando terminasse de escrever o meu romance, eu
chegaria aqui e escreveria algo como querendo descansar, ou até mesmo postaria
uma foto numa rede. Mas hoje, após ter revisado ele e ter a certeza que
finalmente posso dizer que escrevi um livro, não tenho vontade de botar foto em
rede, ir encher a cara, muito menos entrar numa orgia comemorativa. É como se
os pequenos sinais após a semana inteira que fiquei revisando-o, fora os quatro
meses em que fui completamente (e unicamente) toda a história passada no Café
Grão de Paris, me dessem a certeza que um livro só acaba quando ele é
finalmente publicado e se vai de minha gaveta, das nuvens ou de meus arquivos.
Deve ser a mesma coisa com uma mãe que alimenta, educa, veste, dá
banho, limpa, lhe dá umas traulitadas de vez em quando, paga colégio, afugenta
pretendentes folgados, assopra as feridas... Enfim, cria e se julga dono - E
com certa razão. - Mas um belo dia ele passa pela porta e não volta mais.
Ou, abusando aqui dos clichês – Por favor, me permitam isso, por
ora que não tenho compromissos com narradores, personagens ou enredos – Com uma
planta onde o maluco veste macacão, paga mico de calçar botas de borracha e
segurar ancinhos e mangueiras enquanto joga umas sementes num solo e reza se
for dos que rezam; dançam se for dos que dançam ou conversam se for dos que
conversam com a bendita planta. Depois ele vai, mete a mão onde não deve
chamando aquilo de adubo e rega, rega e rega. – E conversa, dança, reza e rega
protegendo aqueles galhinhos finos. Até que um belo dia, já árvore frondosa –
Permita-me leitor, usar a palavra frondosa agora que por ora não tenho mais compromissos
com diálogos concisos ou metáforas originais. – Então, alguém chega na árvore
já frondosa e verdejante e lhe tasca um balanço ou um machado ou uma cerca, e
diz que aquilo agora é praça.
Pois é tô assim, me sentindo meio praça desde que terminei e
escrevi uma crônica chamada “terminei”. Sou apressado, na verdade nem pra me
perceber direito eu presto. O que tô sentindo é o mesmo de quando agente faz
uma puta viagem longa e chega ao destino e dias depois, talvez até meses,
perceba que bom mesmo foi o caminho. Daí agente volta. Deve ter sido por isso
que revisei o romance, acrescentei pouca coisa e só reordenei alguns capítulos.
Realmente eu tinha terminado lá quando falei. É o que percebo agora já no fim
da viagem, bem no meio do lugar virando praça, quando o filho começa a querer ir
pra balada sozinho de que o que devo fazer é voltar. – Ou no meu caso, voltar
significa escrever outro livro. Gostaria muito de dizer sobre o que é que quero
escrever agora, mas quem tem filho, já escreveu um livro ou já plantou uma
árvore sabe que no começo agente quer tudo e depois essas coisas ganham vida
própria, folhas próprias ou situações próprias.
Viram praça, fazem outros filhos, escrevem outros livros e crescem
reproduzem e depois morrem. É... A professora Geilda tinha razão lá na primeira
série, creio que na mesma semana em que ela ensinou isso, todo mundo também aprendeu
a ler.
Sei não, talvez amanhã eu comece outro, ou simplesmente vá ao
cinema pra diminuir esse descampado, essa página em branco ou esse quarto
vazio. Por enquanto, quem conhecer ou for dono de alguma editora e quiser
conversar. É só gritar.
Cid Brasil
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