quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O CARMA DOS COPOS COMPRIDOS

(Imagem retirada da internet - o fotografo passa bem)

 

Todo lar é composto por coisas que praticamente só estão ali para despertarem desprezo em seus habitantes, e não me refiro aos cunhados ou enteados, falo de outro tipo de itens. Minha kryptonita particular, por exemplo, em todas as casas que morei são esses copos compridos de plástico.

Tento colocar o ódio de lado para racionalizar o produto, mas admito que sua ruindade é tanta, que fica difícil saber por onde começar. É um item tosco em sua essência, parece tubo de ensaio de algum vaso que deu errado e a fábrica não quis descartar. O carma dos copos compridos é a única explicação para sua existência natimorto estar afetando nossas vidas, quem sabe na outra encarnação esse tipo de utensílio foi, sei lá, um capitão do exercito que virou um presidente fascista ou uma barata voadora, e aí nessa passagem tenta se redimir para na próxima vir como um pneu de trator. Vai saber.

Voltando: O fato é que sua concepção escrota, quase fálica, esférica, impossibilita que se entorne de uma vez o que se está bebendo, já arruinando aí sua simples função de copo, sendo necessário pequenos goles, um atrás do outro, pois se insistirmos ele irá embicar abaixo do nariz e toda água/refrigerante/suco escorrerá pelo canto da boca causando ainda mais ódio em seu proprietário agora todo cagado.

Sua estética também não fica atrás, sempre em cores berrantes e luminosas ou em versões metálicas e fosforescentes. Como ninguém em posse de suas faculdades (e universidades) mentais irá numa Lojas Americanas ou TokStok e adquirir um copo desses por valor nenhum (só botei tokstok aqui para parecer chique, mas sabemos que ninguém nunca compra nada ali, pois tudo é fuleiramente caro e só nos valemos dessa loja como mostruário ou para tentar, como dizia meu pai, se enroscar em algo, eu mesmo já me apossei de duas cadernetinhas da turma da Mônica, tipo moleskine, mas isso é outra resenha). A maioria acaba indo parar em nossas mãos por acaso, como brindes em festas de 15 anos ou formaturas de cursos elitistas de gente que esperamos nunca mais precisar ver ou ser atendido por eles.

Mas vá lá, igual a parente curioso, os copos cumpridos de plástico sempre irão dar um jeito de entrar na nossa casa. Então, uma vez estando em sua cozinha, os copos compridos de plástico vão dar trabalho sempre, principalmente na hora de se higienizá-los, pois se uma vez você bebeu algo mais espesso como aquele Activia® de ameixa para soltar ou Xumbrequinho® (uma marca de iogurte aqui da rua), você jamais irá conseguir lavar o fundo do copo justamente por sua deformação típica, a menos que de posse uma vareta você esteja disposto a toda vez estragar também uma bucha de prato. Enfim, um inferno. Já que fatalmente, passado os dias, eles irão formar uma pequena crosta de sujeira, lodo, lama e sabe-se lá o que mais em seu fundo, e quando você perceber, desistira de uma lavada mais caprichada e estará entornando uma imensa quantidade de germes que ou irão te matar por infecção intestinal ou te farão às três da madrugada estar no banheiro, sofrendo, digitando um textão no celular enquanto engole mais um Floratil e pensa que o copo comprido de plástico ficará por aí ainda, dando sopa, quer dizer, dando trabalho nesse mundo, com sua matéria prima indestrutível, rindo da sua cara a cada ida na cozinha ou a cada loja de brindes, enquanto ele ostenta aquele “15 anos” na fonte Lucida Caligraphaphy – junto do nome de alguma também falecida ninfeta de nome Pyetra ou Mykaella ou Kedllyn Jasmine – ou te lembrando que você já foi capaz de algum dia ter ido numa Festa chamada Coutry Mix em alguma boate onde o DJ era um coroa barrigudo usando uma camisa com o logo do Batman, e uns braceletes que lhe prendiam a circulação, para parecer mais xovém e descolado, e que lá a única coisa que você trouxe para casa foram várias unidades desse tipo de porcaria.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

SAIDINHA DE BANCO

(Harley Manifold)
 

 

 “Todo dia um malandro e um otário saem de casa.
Quando eles se encontram, saí negócio”.
- Provérbio Chinês -
 

Tenho, como todo homem são, uma serie de neuras, desconfianças e paranoias por qualquer coisa que exista nesse mundo. Uma delas é a de não confiar em bancos e muito menos em aplicativos. Mas... Enquanto a pandemia do covid-19 não mata metade da população mundial e o Covid-20 ainda não nos fez chegar a completa barbárie e destruição de todo o sistema capitalista, é preciso sair de casa para encarar um caixa eletrônico numa agencia qualquer e pagar boletos. 

Qualquer cidade brasileira que tenha programas policiais na hora do almoço como lideres de audiência não inspiram muita confiança. Portanto saio de casa apenas com o essencial nestes tempos. Ou seja, mascara e desodorante no sovaco.

Antes de entrar no banco, igual a todo mundo, vejo a movimentação de longe. De dentro do carro, olho para os quatro cantos se não há ninguém escondido no estacionamento, ou mesmo dentro da agencia. Nada. Tudo calmo e vazio. Perfeito. Mesmo assim entro intuindo uma coisa ruim, um mal estar que vai muito além da obra completa de Dostoievki que carrego em contas. A sensação de que serei pego por um momento até me faz esquecer o limite do cheque especial.

Olho a porta de entrada várias vezes e tento ver pelo janelão alguma movimentação mais estranha na rua. Impaciente, tiro o cabelo da testa, finjo tirar caspa do ombro direito, ajeito a manga do lado esquerdo e coço o peito – alguém mais atento nas câmeras de segurança notaria que esse é um sinal da cruz disfarçado. Faço um pedido a sabe-se lá quem, desejando proteção e que por favor, hoje não...

Mas então eis que acontece! Ouço o barulho de uma motocicleta vindo da avenida. São dois caras. Puta merda, eu penso, me ferrei. São eles. É ele. Fico congelado olhando para uma família ilustrando as vantagens sobre o débito automático. Pelo espelhinho retrovisor colocado acima do caixa eletrônico confirmo meus temores,  mas esse cara não só atacava pessoas no Santander? O vulto se aproxima. O meliante vem por trás e parece procurar um lugar em que eu não o note até que se prepare para o seu bote. Pela visão periférica, noto a motocicleta que o trouxe manobrar.

Coloco as duas mãos aonde ele possa ver em cima do teclado numérico e respiro fundo. Ouço um clique. Já sei os seus passos, ele é figurinha carimbada nas agencias bancarias aqui da cidade. Mas só nas do Santander, o que ele faz aqui agora, na Caixa Econômica? Quantos clientes já não caíram em suas mãos, em seu golpe. Só me resta aguardar o inevitável.

Antes que eu esboce qualquer reação, ele saca de sua estranha maleta seu instrumento e... Começa a tocar Evidencias, de Chitãozinho & Xororó. Não há saída. O violinista do banco está na única porta. Baixo a cabeça e amasso a conta de luz. Percebendo meu descontentamento, rapidamente ele emenda Viva La vida, do ColdPlay.

Sua armadilha é perfeita.

Afinal, quem não vai se sentir fragilizado diante de um violinista, um artista sem palco querendo angariar fundos para sobreviver nesse país de insensíveis e que não valoriza o Belo (não o marido da Viviane Araújo!).

Se não dermos dinheiro, é por que somos imunes à arte tão refinada como um violino que toca o tema de Frozen. Estaremos, se não depositarmos dinheiro na sua maletinha aberta, assumindo nossa condição de seres cujos ouvidos já estão estragados pela algaravia do mundo moderno. O pedinte artista é o “sou pai de família/homem de bem” da arte; a chantagem perfeita. Impossível critica-lo sem parecer um esnobe ou um babaca, porém esse cara tocando Marilia Mendonça nesse cavaquinho com vareta, num banco, eleva o nível de forçar barra, é outro patamar como dizia o flamenguista.

O cara que topa fazer esse jogo dele, é um demônio. O homem do violino no banco se não tivesse tocando violino estava concorrendo ao senado ou metendo gol de forma oportunista em algum time de futebol profissional. Se bobear, aprendeu a tocar só pra explorar pessoas em situação de boleto atrasado, como eu.

Querendo manter minha honra de homem culto, mas sem trocados no bolso. Me pego quase que lhe sorrindo e dizendo que não tenho nada. Eis a verdade. Estou liso. Será que ele tem maquineta de cartão?

Não. Digo a mim mesmo, nada disso.

Ainda que tivesse alguma nota nos bolsos, não lhe daria, pois acho seu golpe deveras rasteiro. Um instrumento musical na mão de alguém sem escrúpulos, me faz lembrar das palavras de Fausto (o Silva): “É igual colocar gilete na mão de macaco”.  Mas aqui não é um teatro, aqui é o mundo real. O único lugar onde se pode comer uma feijoada e parcelar em três vezes no rotativo. Porra, um alicate de unha de três reais eu consegui dividir, por que não consigo encarar esse doidão?

Tento manter a calma, digito tudo manualmente, zero por zero. Atenção total para não agendar nada para dois mil e trinta. Estranhamente vou mergulhando nas suas melodias e me pego acompanhando o ritmo do Für Elise, de Beethoven e quase peço Bis quando ele toca Não quero dinheiro, do Tim Maia. Mas aí noto o deboche.

Passados vinte minutos de nossa valsa, estou batucando no teclado o tema da vitória do Ayrton Senna.

Sozinho.

Olho para trás e não vejo ninguém, exceto um boneco de papelão pedindo para os clientes baixarem o aplicativo do banco.

Minha pilha de contas atrasadas cansou o pescoço dobrado do violinista. Ou será que ele notou que sou um pobre diabo ocupado, pagante de contas e que provavelmente não lhe daria nada. Igual entrou, ele sumiu noite adentro, escafedendo-se feito uma alma errante, para talvez aterrorizar outra pessoa, nessas tão temidas e famosas saidinhas de banco de uma cidade tão traiçoeira como Maceió.

Sigo no meu papel de otário que não atrasa vencimento cantarolando “já é natal na Leader Magazine”. Quando saio da agencia, percebo que alguém escreveu no para-brisa traseiro do carro, usando a poeira como quadro-negro: “Me lave!”.

Só pode ter sido ele.

Em quantas vezes será que parcelam uma lavagem completa naquele posto? 

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

GARÇONS

(Toulouse-Lautrec)
 

Nas línguas latinas a melhor definição da palavra garçom é a francesa, escrita com “N” no final, que significa “rapaz”; já nos idiomas anglo-saxões, o inglês waiter ou, aquele que espera, define bem a alma desta profissão que passa por mais transformações do que o preço das caipirinhas ao longo da noite. Embora, lá como cá, todo mundo requisite a atenção desta categoria pelo universal gesto de erguer a mão junto do irritante: Psiu!

Partindo para a alta cultura e ambientes mais refinados, como os botecos, vemos que Reginaldo Rossi eternizou a figura desse serviçal contemporâneo numa canção sobre um ébrio (pinguço, em francês) desabafando casos amorosos numa mesa de bar a altas horas da madrugada, onde para tristeza do pobre coadjuvante na letra, que além do aluguel do cliente, ainda terá que deitá-lo no chão, sem sequer a estima de uma gorda caixinha ou do pagamento dos 10% opcionais.

Mas a dinâmica derivada do choque entre trabalhador e trabalhador de folga presente nas mesas e cadeiras mundo a fora tem mudado bastante desde que os jovens empreendedores passaram a assumir os negócios dos pais, e tal qual Midas ao contrário que são, ou seja, tudo em que tocam vira merda, a carreira de garçom que parecia uma opção mais digna do que o serviço militar ou a advocacia para jovens desempregados exercerem algum tipo de perversidade remunerada, agora esses profissionais tem não só que abandonar as clássicas vestimentas presente em nosso imaginário como as camisas brancas surradas e as gravatinhas borboletas, como também deixar para trás o andamento da boa e velha arte de servir sem simpatia. Ou, de servir mal, para servir sempre.

Agora, além de ostentarem trajes que mais se parecem com os de um sorveteiro de filme americano, como bandanas e aventais de cores quentes, há que se carregar sorrisos e tolerância nas bandejas cansadas com intimidade forçada de clientes. Como se não bastasse sobreviver a salários ridículos, patrões carrascos e a canções ao vivo de voz e violão, agora a estes nobres profissionais lhes são exigidos, não só a sobriedade total em alguns casos, como até mesmo que expliquem que os 10% na conta são opcionais, embora o couvert artístico seja obrigatório – mesmo que eles sequer ganhem adicional insalubridade por passar o dia inteiro ouvindo Gaúcho da Fronteira ou Homem-Aranha, de Jorge Vercilo.

O clássico tipo que só falta bater em você, está perdendo espaço para o garoto invisível de tablet na mão, ágil e faceiro, pronto a lhe recomendar o especial do dia e o melhor vinho da casa, mesmo que na pétrea linguagem das comedorias ter um atendimento rápido, com muita simpatia e atenção nunca significou que você é uma pessoa bem vinda ali ou que seu garçom da vez o estima, muito pelo contrário, isso significa que seu atendente quer o mais rápido possível que você dê o fora do lugar. Não importando se você irá deixar caixinha. Ele e principalmente, o ambiente, querem se ver livre da sua cara.

Portanto, estime a casa onde você é driblado a cada vez que levanta a mão ou solta assobios. Solte muitas estrelas nos aplicativos onde o garçom lhe joga as coisas na mesa ao invés de pousá-las e diga por aí que o olé que você tomou no salão significou estima e apreço por sua presença.

Entenda também este e outros sinais corporais emitidos pelo seu garçom, que apesar da modernidade, persiste em sua alma servil; por exemplo, ao lhe entregar o troco se ele demorar em lhe passar as notas ou mesmo se ele te colocar de forma constrangedora impedindo-o de sair da mesa, praticamente imprensando-o na cadeira, e com a cintura quase rente a sua cabeça, saiba que aquilo é mera formalidade da função e não um convite ao erotismo, pois ele não está só pedindo, mas sim dizendo que aquela gorjeta é dele.

Caso você seja um durango ou mesmo não entenda a hostil dança que ambos praticaram durante o tempo de quatro chopes e uma porção de frango à passarinha, não se preocupe, mesmo o mais embrutecido anotador de pedidos irá lhe dizer, obrigado – mesmo que seus olhos e sua alma estejam dizendo: 

Fela da puta! Que em francês significa volte sempre.

 

domingo, 25 de outubro de 2020

MONITORADO PELA MÃE


 

 

É quase meio dia e o sol a pino lá fora castiga as moleiras do bebes desprotegidos criados por pais adolescentes. Acordado desde as seis, o neném Luiz Claudio, de 8 meses, despertara de sonhos intranqüilos onde se via metamorfoseado num desses garotos criados por gente cujo o perfil nas redes sociais possuem avatares de anime. Porém os quase 5 mil seguidores da sua conta no instagram tem sido um pesadelo e a verdadeira causa de suas brotoejas.

A pomada para assaduras Cetrilan é a cura desse mal e foi aberta há dois dias num vídeo no youtube sob o título de “resenha” por sua mãe, Poliana, que acabou de acordar e confere quantas pessoas visualizaram o vídeo e se este já possuem indícios de monetização. Ela sorri para o celular e ainda deitada, mendiga meias para recém nascidos numa loja virtual, elogia outros perfis de bebes e curte fotos sempre praticando o código de Hamurabi: Like por like, seguidor por seguidor. Responde tudo numa linguagem abobalhada, cheia de emoticons e nos dias inspirados até consegue ser um ghost-writer decente, fazendo textão como se fosse uma criança alfabetizada, mas com pouca leitura e dificuldades de interpretação textual.

O menino real, de carne, osso e catarro não para quieto e tenta se erguer mais uma vez sob o colchão mole, enquanto segura e morde as grades do berço que rendeu 2,000 visualizações ao ser desembalado sob o título de “recebidos”, embora tenha custado uma pequena fortuna para a avó materna dele, que é no fundo quem segura a onda da casa. Os paninhos em volta parecem uma Tereza de lençóis. Quando finalmente fica em pé, Luiz Claudio arremessa um coelhinho e fica olhando a pelúcia quicar, como se estivesse calculando se uma queda dali o machucaria muito.

O movimento do bichinho desperta a mãe do torpor virtual. Ao pegar a segunda pelúcia para atirar longe, ele sente uma sombra se aproximar do berço e ao virar o rostinho, quase bate com a cara no celular de Poliana, que descabelada e com um terrível bafo matinal pede que ele repita para a câmera as palavras: Mamãe, mamãe, bom dia...

O bebe Luiz Claudio respira fundo, segura com força a barra do berço e baixa a cabeça decepcionado. Depois de alguns segundos nessa posição, lembra-se que ainda está cagado e olha bem fundo naquela lente da verdade e estoura, num português tão claro quanto as cores de suas vestes infantis:

-- Porra, mãe, todo dia isso! Eu ainda estou sujo e com fome e a senhora já quer vídeo. Caceta, mãe, ninguém vai nos dar nada, e o que deram (um jogo de meias e um andador) é por pena dessa minha carinha de constrangimento nesses vídeos e tudo com cara de sobra de estoque. Me limpa ou passa a minha pomada, ou me deixa quieto, então! Sem contar que está cheio de gente mal intencionada e mal caráter aí por trás desses stories, gente que fica prestando atenção mais na cenografia, nas ausências aqui de casa do que em mim; olha ali aquelas paredes descascando, que vergonha... E daqui a pouco... Daqui a pouco chega a vovó e é a mesma coisa, vídeo, foto, boomerang... Poses e mais poses. Eu quero viver de verdade, mãe! Viver! Olha minhas últimas fotos, meus últimos vídeos, veja minha cara de estafa com essa ladainha toda. O dia tá cheio, mãe, ou a senhora acha que aqueles monta-montas vão se levantar sozinhos? Ou aquelas massinhas coloridas irão se modelar do nada? Tenho o cachorro pra beliscar, tomadas para enfiar a mão, paredes para riscar e dúzias de brinquedo e micro-pecinhas para colocar na boca. Vamos levantar dessa cama! E eu adoraria que nessa casa tivesse pratos nas mesas para puxar a toalha, mas a senhora nem cozinhar sabe... Dá um tempo, façam outro filho! Ou se ocupa com o papai, tente tirar ele daquele maldito joguinho de computador, pois ele não engana ninguém com esse papo de trader. Sei lá, arranja um trabalho ou pede a vovó dinheiro para viajar e me deixa na mão de uma baba relapsa, me deixa só, me larga numa escola e esquece de ir me buscar uma tarde pelo menos... Ou não, ou não! Me coloca só no chão, por favor! Mas sem esse celular, me seguindo feito um encosto, sem essa sensação de milhares de pessoas me agourando. Pelo amor da Pepa Pig ou do Lucas Neto, acredita em mim quando eu digo que eu não tenho mais ideia do que fazer, não agüento mais repetir as mesmas caretas ou pedaços de palavras, babar sempre nas mesmas horas; sem contar que a sua imitação de neném, sempre que eu falo alguma onomatopéia é... É uma das piores da nossa família, é irritante demais. Será que seus amigos aí do celular não te dizem isso? Não, né? Olha isso é um sinal. Pelo menos, mãe, me dá um tempo para me inspirar, pra trazer algo novo, pois vamos ser sinceros, eu não sou bonito e certamente vou puxar as pernas cangaias do papai... Vamos admitir que ninguém vai me chamar pra comercial de TV ou novela. Se ainda eu fosse uma menina, já que nessa exposição toda que a senhora me submete, até os doze, treze anos na aba do instagram da mãe, quem sabe eu até despertaria a atenção dos tarados, mas não... A senhora segue essa linha, bebe cristão aí... Bem démodé. Pense, que público é esse que buscamos? Daqui a pouco nascem meus dentes e depois perco a graça, admita, não é sempre assim? Ou vai me filmar até que me nasçam os bigodes? O que foi? Não falo numa linguagem que a senhora entende? Não me diga que toda essa devassidão da minha vidinha, de meus movimentos atrapalhados não te faziam sequer desconfiar do público que tinha acesso e consumia isso? Porra, mãe! Permita-me então alguma outra infelicidade na infância que não essa, que não essa desgraça da superexposição, pois ainda temos pouco material pedagógico na psiquiatria infantil para lidar com os traumas advindos disso, de gente criada sob a égide de “monitorado pela mãe” ou de “mini-fashionista”. De infância e juventude com pais ausentes, muitos artistas se formaram pelo menos; digamos assim, há uma base forte para que isso vire algo. Me dá isso que eu quero, me dá a distância feito o papai nos dá, me dá... Olha! Ainda faltam dois meses para os meus dentes nascerem, me dá um tempo até lá pelo menos, por favor! Um respiro; pode ser? Pode ser, mãe? Fala alguma coisa... Fala!

Poliana, atônita, olha bem fundo no visor do celular e demorando a acreditar, diz, com voz de choro:

-- Droga... Deu memória cheia... Dá para falar de novo, bebe? Não gravou... Repete pra mamãe, de novo, repete! Dá, dá, dá...?

CHURRASCARIA

 


Em algum ponto entre os municípios de Teotônio Vilela e Junqueiro há uma placa na beira da estrada que chama a atenção dos motoristas mais atentos e famintos que trafegam pela BR 101 Sul do estado de Alagoas: 

“Churrascaria O Gaúcho Sincero - A única que fecha para o almoço!”

Possivelmente adquirida num esquema de permuta entre uma distribuidora de cervejas e o estabelecimento, a placa publicitária é que de melhor e mais moderno você irá experimentar no respectivo restaurante de horários alternativos, serviço ousado e decoração cansada; passado a surpresa inicial, para ficarmos nas metáforas automobilísticas, é só ladeira abaixo.

Mesmo as raias da falência, o empresário Leopoldo Soares, radicado em Alagoas há mais de quarenta anos, todos eles dedicados a fiel tradição gaudéria de assar carne e cobrar caro por isso, parece mais interessado em agradar a si mesmo ao invés dos clientes que ali pisam, vide o mantra que repete sempre que estende o cardápio aos recém-chegados:

-- Mais barato, só na concorrência!

Por falar em preços, outra curiosidade é que a carta de opções da Gaúcho Sincero é idêntica as dos outros três restaurantes presentes na região, oferecendo os mesmos pratos, carnes e bebidas, inclusive nos erros ortográficos a semelhança entre as comedorias se destaca.  Questionado sobre o tempo de preparo de um galeto gratinado, acompanhado de arroz com brócolis, Leopoldo, que ostentava um terno branco de corte barato e grosseiro, respondeu de bom grado – com seu forte sotaque gaúcho – que não, que era rápido, que o pedido levaria só o tempo do menino ir comprar ali no vizinho. Isso se a corrente da bicicleta não estourasse no caminho, alertou.

Embalado pela modéstia da casa também está o jovem chef da casa, um adolescente magérrimo de 14 anos de dentes proeminentes, vasta cabeleira, leve semelhança com Leopoldo Soares e que fica prostrado na cozinha sempre de olhos atentos aos movimentos do patrão. Pronto a sair em disparada em busca do sabor perfeito – 10% e gorjetas incluídos.

O nome atual do estabelecimento, como fica claro, reflete um pouco o cansaço e a resignação do gaúcho de Sarandi que alega ter tentando de tudo para obter algum sucesso no ramo alimentício, mas que em todos esses anos só conseguiu tocar naquilo que chamamos de subsistência e nos melhores anos, na sobrevivência.

Feito um jogador de futebol, que ao passar dos anos vai jogando em divisões inferiores conforme a decadência física, Leopoldo que começou de garçom na Churrascaria O Lançador, na orla de Maceió, conseguiu juntar dinheiro e montar seu próprio negócio no interior do estado. 

Tentou de tudo que se pode imaginar para ocupar as 22 mesas do pequeno salão: De jovens garçonetes à cantores sertanejos, passando por rodízios de carne, pizza e sushi no cardápio; indo de comerciais em rádios, perfis em rede sociais e almoço grátis para Carlinhos Maia, mais camisetas, bonés, chaveiros, promoções relâmpagos, chegando até a contratar garçons sósias de artistas de hollywood e animais silvestres engaiolados no jardim, além de alugar espaço kids, fliperamas e antena parabólica com futebol internacional, futebol americano e basquete para deleite dos desocupados que por ali deslocavam se consumir uma água mineral...

O terno branco que usa diariamente no velho esquema lavou-vestiu, foi inspirado no de Marcello Mastroianni em A Doce Vida, que Leopoldo Soares afirma remeter a uma dessas tantas empreitadas que iam lhe roendo, feito a gastrite roeu o estomago dos poucos ratos da despensa, ano após ano, o minguado lucro que obtinha na tentativa de inovar e cativar a clientela da região.

A vestimenta foi tudo que lhe sobrou, além, é claro, da estrutura do prédio e do menino-cozinheiro, possivelmente fruto de algum romance do proprietário com alguma funcionária.

Tudo bem que uma coisa é Marcello Mastroianni usar ternos brancos e ficar bonito, mas outra coisa é o gaúcho Leopoldo usar terno e parecer apenas um capo italiano; mas mesmo com sua aparência de ressaca e o mau humor no atendimento, a empresa tem experimentando uma leve melhora na economia, mesmo que a dúvida permaneça no ar se esse relativo sucesso é por causa da qualidade da cozinha (do vizinho – e da velocidade cada vez mais efetiva do boy-garçom) ou do respiro que os moribundos sempre experimentam antes de empacotar dessa para uma melhor. No caso da Gaúcho Sincero, antes de beijar a lona.

Para Leopoldo, que em alguns momentos demonstra certa cultura e algum grau de sofisticação nas respostas fruto quem sabe do canal de arte da TV a cabo que vara as madrugadas assistindo, a falência total, a verdadeira falência só se daria se a Churrascaria pegasse fogo, caso contrário ele seguirá aberto, ainda que as brasas da churrasqueira estejam sempre apagadas e os botijões quase secos. Mas em caso de fogo, eu acho que salvaria o fogo, garante. Mentira, corrige-se, salvaria o piá, diz apontando para o menino na cozinha. 

Que durante a escrita desse artigo, aproveitou-se da distração da chefia e entornou duas Coca-Colas escondido, mas ao ouvir seu nome gritado pelo patrão, subiu na bicicleta e disparou para comprar mantimentos, mesmo que desconhecesse o que era pra comprar ou fazer.

-- Tá vendo! É por isso que o pagamento tem de ser antecipado – Completou Leopoldo.

 ***

(Está foto do meu pai, suando a camisa, serviu de inspiração para esse texto.)

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

PAPAGAIOS NA IDADE MÉDIA

  



Dia desses morreu Tancredo, o papagaio de uma senhora aqui do prédio. Provavelmente a causa mortis do papagaio seja saudades do antigo dono que partiu dessa para uma melhor no começo de 2020. – Aliás, qualquer outra partida deve ser melhor do que continuar encarando 2020, imagino eu.

Mas o último vôo (papagaios voam?) de Tancredo foi uma boa notícia para o nosso bairro, já que a ave tinha o desagradável hábito de toda a manhã ficar catalogando os moradores que passavam na calçada em frente a sua varanda. “Feioso!” ou “Bonito, bonito!”. Seriam papagaiadas ensinadas por seus donos, talvez? Além de desfiar toda uma leva de sortidos palavrões.

Da minha janela não conseguia bem ver a reação das pessoas ante a apreciação estética de um papagaio preso a uma corrente num poleiro velho. Somente uma vez ouvi alguém responder: “É mãe!”.

Por falar nelas, a minha julgou que o padecimento de seu emplumado vizinho era algo digno de um obituário. Não sei se o mesmo ocorre com os amigos escritores, mas sempre que morre algum conhecido minha mãe me cobra algumas linhas, alguma homenagem ou parafraseando Drummond alguma poesia, embora na maioria das vezes eu atue como o Tancredo e diga somente se o indíviduo em questão era “feio”, “bonito, bonito!” ou “bandido!”.

 

-- O irmão do seu pai, o Tio Aracy, lembra? Era um baita personagem... Faleceu, coitado.

-- Mãe, o cara casou com a própria sobrinha que ele ajudou a criar!

 

-- Aquele velhinho que ficava na esquina da padaria morreu... Tadinho... Merecia uns versinhos, né?

-- Que nada! Não podia passar uma mocinha por ali que ele ficava mostrando a língua e falando putaria...

 

-- Meu gato morreu. Lembra com ele era diferente. Valia uma crônica!

-- Ele só fazia xixi fora da caixinha de areia... E a senhora já não o suportava mais.

 

Creio que foi Alejandro Zambra quem disse que você só se é escritor de verdade quando as pessoas (seus pais?) o veem escrevendo e não mais o mandam comprar o pão. Talvez por me negar a escrever sobre Tancredo fui obrigado a ir até o supermercado.

Na quarta vez que tenho que mudar de calçada para evitar cruzar com alguém sem mascara, dou meia volta e retorno para casa, arrependido de não ter feito amizade com a Dona do Tancredo para lhe ensinar a dizer da janela: “Cadê a mascara, seus arrombados?”.