domingo, 20 de outubro de 2013

DESPEDIDAS


(Nesskain)



Escrevo essa crônica da rodoviária do Tiete em São Paulo, palco de chegadas, despedidas, expressos a oito reais e de outros gatunos; no café onde escrevo há um imenso piano no meio do salão, o piano, ao contrário do café é de graça. Como nem tudo é perfeito, o moço que balança os dedos em cima das teclas nesse momento, nos brinda com o tema do filme Titanic. Uma mulher ao final aplaude, ele se levanta e faz uma reverencia tímida. Fazem um meneio de cabeça e ele se vai.

Gostaria muito de dizer que essa imagem de um piano de calda numa rodoviária me comove, mas não. Não sinto nada por ela... Muito menos com a imagem de outro casal a minha frente conversando com lágrimas nos olhos. Devem terminar, ou a talvez recomecem.

Talvez eu tenha ficado saturado da imagem de casais se despedindo aos domingos em estações de metro; vindo para cá, vi dois adolescentes que teimavam em não se desgrudar. Ora ele ia depois voltava, depois ela fazia o mesmo, ambos voltando com mais beijos e olhares dignos de derradeiros capitulo de novela.

***

Costumo dizer que não sou o mesmo do que um minuto atrás. Então, que dirá de uma semana. Os primeiros parágrafos dessa crônica foram escritos por outra pessoa, por outro eu, digo isso simplesmente porque acabo de trocar de lado; trocar também abraços e palavras de carinho, trocar lágrimas escondidas e novas dúvidas sobre o retorno. Sim, já entendo melhor os casais enganando a breve eternidade da separação, - aquele rapaz lá do começo deve morar em Guaianazes a menina nos Jardins, sei lá, nesses extremos. São Paulo é um mundo. Então aqueles abraços, beijos e olhares que se repetiram umas cinco vezes num domingo a tarde seguido de um adeus mudo, é mais que compreensível. É necessário. As despedidas, em esquinas ou aeroportos trazem isso. Mas sempre acho que também estamos nos despedindo de nos mesmos.

Me desdigo dentro de outro café, já de volta, acreditando agora que mais do que enchentes, bombas atômicas, maremotos, tsunamis, dinossauros, televisão, “te vejo só como amigo” ou qualquer outro tipo de tragédia, nada, nada é mais devastador do que se despedir de alguém que amamos.

***

Caminhando para cá, um senhor na Av. Paulista, me parou e pediu um dinheiro, disse que morava longe, em outra cidade, queria completar a passagem... Dei, e interrompi seus agradecimentos lhe dizendo pra aplaudir quem estiver no piano do café da rodoviária.

Cid Brasil

domingo, 6 de outubro de 2013

O ADVOGADO, O VEREADOR, O COMERCIANTE, OS ESTUDANTES, O ÁRBITRO, O COZINHEIRO, SUA AMANTE, OS GARÇONS E O LADRÃO.


(Hieronymus Bosch)



Todos naquele domingo lanchavam sem peso na consciência e sem vazios existenciais ou monetários. Um pensava que havia sido fácil defender aquela velha contra a loja de eletrodomésticos; com o dinheiro da causa podia finalmente trocar de carro – A velha, só teve a sanduicheira trocada por outra.

O de cabelos ralos acreditava que tinha descoberto uma maneira de financiar sua campanha, seu próximo grande passo, agora rumo a capital! – Cuscuz, carne, batata e café com leite para que? – Se um pão com três bolachas e meio copo de leite resolvem. Claro que resolvia. Resolvia até o lado dele.

Aumentar os preços? Sim, antecipar os fornecedores. E promoções naqueles sucos em caixinha, mês que vem viram lixo mesmo.

Louco é você? Eu? Eu não, é que não tenho tempo rapaz. Semana que vem viajo pra Porto de Galinhas. E como você vai fazer para apresentar? Ah, isso ele me ensina, paguei quase quatro mensalidades do curso. Parece bom! Me dê o número dele, TCC é mesmo um saco. O cara vive disso. É profissa!

Antes eles do eu. Não tenho culpa de fanatismo de ninguém... Preocupam-se demais com futebol nesse estado. Danem-se! Com o salário dos políticos e com as falcatruas deles ninguém se preocupa. Mas com um penaltezinho aos quarenta e cinco...

Avise o gerente que precisamos de mais cinco quilos de contra filé. Sim, acabou! Não me olhe assim de novo... Tudo bem, menina, agente divide. Aquela peça tá enrolada lá atrás, quando você for levar o lixo pra fora, você leva a peça e a esconde. Na saída agente pega.

Certo! Só que hoje, não poderei ir pra sua casa. Meu marido está desconfiando... Tudo bem, amanhã você me entrega a minha parte. Pode deixar que aviso pro Seu Jair comprar mais filé. 

Dá trinta reais e quarenta e cinco centavos. Obrigado. Como? Ah, é verdade, desculpe! Dá dez reais e quarenta e cinco centavos... É Que hoje estou meio desligado. – Hoje tá fogo! Desse jeito, vou ter de pedir outro vale. 

De repente, a porta faz ‘tlim!’ e um moço de boné e de bermuda interrompe todas essa vozes e pensamentos. Olha para os lados e educadamente, pede que todos olhem para o chão: É um assalto!

O seu plano dá errado. No quinto celular que recolhe o advogado que tinha ido ao banheiro esquece que não tem porte de arma e num movimento rápido (que irá mostrar zilhões de vezes para os netos como se faz) rende o assaltante e toma a sua pistola de brinquedo.

O linchamento é geral.

No fim, após a cusparada da menina da limpeza e os xingamentos do árbitro de futebol, discretamente o advogado coloca no bolso da camisa do rapaz um cartão com o número e o nome de seu filho que está iniciando na carreira.

Você vai precisar!

Cid Brasil

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

ROTINA




 
(Santiago Caruso)

Agente às vezes viaja pra ser original lá fora ou pra renovar o olhar sobre o mesmo, dizem uns. As mesmas roupas, os mesmos caminhos, as mesmas frases... Eu tento muitas vezes misturar, olhar com mais atenção até mesmo pro meu rosto no espelho. – Creio que se não fosse assim a minha literatura estaria perdida. E eu também.


Olhar diferente para o cotidiano é difícil, eu sei. É mais fácil a comunicação entre homem e animal existir através das palavras... Quem dera! Só assim o gato aqui de casa (Que não sei se é ela. Até isso é difícil saber) – bom, só assim ele (a) me entenderia; compreenderia que minhas reclamações contra a sua preguiça não são por sovinice em dividir a minha ração, mas sim pedidos para que ele ache o grilo que me atazana há dois dias com aquilo que as fábulas ousam chamar de cantoria. Permitam-me aqui, caros leitores, cair na minha própria lorota: O cara que escreveu sobre o grilo falante ou grilo boca de cantor, não tinha grilo em casa, e querendo que as coisas mudassem um pouco, lascou a pena no papel e inventou essa. Deve ter acordado querendo enfrentar diferente o frio na Noruega.


Ou


Padecia do mesmo mal que eu sofrendo com esses desafinados. E também com a falta de entendimento de nossos gatos a uma ordem fina de ataque. Sabem tudo os bichanos: Truques, manhãs e até chantagens, ouvir eles sabem, mas não aprenderam a falar ainda. Anos de evolução, estrelas do youtube, recordistas de likes no ‘face’... E nem uma mísera palavrinha, coisa tão fácil que até idiotas mestres como nosso governador conseguiram. – Se bem que ultimamente nem ele tem se valido desse artífice.

Aguardemos.


Falar no cidadão e na cidade que jaz o gato, o grilo, o papagaio e o cronista... Exercitar a percepção para o inédito ou para o micro é mais até do que algo poético: É necessário! Enxergar borboletas voando nos entulhos de nossa cidade em desconstrução, nossos reflexos nas poças d’água de nossas vielas, o brilho no olhar do ladrão que nos rende, os suores que percorrem todo o corpo de uma bela ninfeta num coletivo lotado (e parado), silenciar perante a selvageria quase orquestrada de nossos irmãos motoristas... Hoje mesmo, vinha eu assim, meio abobalhado percebendo a ninfa e o todo (no caso o congestionamento) e quis entrar numa ruazinha paralela e outro cidadão me antecipou, buzinei timidamente e ele baixou o vidro e me estendeu seu belo trinta e oito. Devia estar a venda, ou precisando de vitamina D, pois só estendeu para cima, resplandeceu ao sol e seguiu. Cheguei em casa e o mal que e o meu gato do mesmo jeito. Sim, pois ele (ou ela) sobe em minhas pernas e depois na mesa enquanto almoço, boceja enquanto releio está crônica em voz alta - O grilo continua lá e mia alto enquanto tento cochilar: Ou seja, são igualmente mal educados e revoltados comigo. Os motivos de ambos para agirem assim, eu desconheço. Deve ser fome.


O mal do motorista também. Afinal, era meio dia. E era em Maceió.


 Cid Brasil

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

SAUDADE



(Victor Ngai)


Você lembra quando dizia que queria ter cinco filhos? Sim, respondo, faz tempo não é? Nesse tempo eu ainda era filho. Ela sorri. Sorrimos juntos. E de repente ela solta, com toda a doçura que a frase exige.


Saudades de você.


Saudades da gente! - É o que respondo.


Ao falar a frase acima, no mesmo instante já sinto que sentirei saudades dessa conversa. Que quando chegar em casa irei aprisionar o momento dentro de alguma crônica ou bilhete que no futuro... 


Saudade seria um bonito nome para uma criança, ela volta dizendo.

Eu, bobo, só aceno a cabeça dizendo que sim. Eu gostaria de me chamar Santiago. Quando criança, um dos meus cinco filhos seria Santiago. Hoje. Gostaria de me chamar Saudade. E um dos meninos será Saudade.


Beijos no rosto. Apertos de mão. Olhares enciclopédicos.


Fico só. Sentando. Peço a conta dos expressos e dos dois chás. Papel e caneta nas mãos. Por dentro, todo devastado e nas ruínas só uma faixa branca balança, nela escrita em letras vermelhas e caixa alta a palavra: Saudade.


No guardanapo escrevo:

Saudade é eternidade; saudade é posse. Saudade é eu te amo dito ao contrário. E dizer que ama, é ter saudades. Mentira deslavada quem diz nunca ter saudades, quem diz isso nega que viveu. Mas talvez eu não acredite simplesmente por ser um memorialista precoce. Quando começo a enumerar as minhas paro e percebo que todas elas juntas formam um tijolinho, depois uma casa, depois um bairro, em seguida uma vizinhança e depois pessoas... Árvores, carros, vitrines. E quando vejo essas saudades se transformam num lugar cheio de gente, de rostos que nem sei os nomes e de um casal conversando. Presto atenção até em quem nos vê, em gente que irei batizar, por que sempre batizo, com essa palavra linda: Saudades. 


Ela, de repente volta, diz que esqueceu a caneta. Era mesmo, pertencia a ela isso também. Entrego, e fecho o guardanapo no bolso. Sigo acompanhando-a até a porta, conversando mais, no bolso esmago o guardanapo na ânsia de cravar nele, como meu suor o que vou ouvindo e principalmente o que vou sentimento.  É só aí que finalmente ela se despede e se lembra (com saudades) dos planos que fazíamos quando criança.



Cid Brasil