quarta-feira, 4 de novembro de 2020

GARÇONS

(Toulouse-Lautrec)
 

Nas línguas latinas a melhor definição da palavra garçom é a francesa, escrita com “N” no final, que significa “rapaz”; já nos idiomas anglo-saxões, o inglês waiter ou, aquele que espera, define bem a alma desta profissão que passa por mais transformações do que o preço das caipirinhas ao longo da noite. Embora, lá como cá, todo mundo requisite a atenção desta categoria pelo universal gesto de erguer a mão junto do irritante: Psiu!

Partindo para a alta cultura e ambientes mais refinados, como os botecos, vemos que Reginaldo Rossi eternizou a figura desse serviçal contemporâneo numa canção sobre um ébrio (pinguço, em francês) desabafando casos amorosos numa mesa de bar a altas horas da madrugada, onde para tristeza do pobre coadjuvante na letra, que além do aluguel do cliente, ainda terá que deitá-lo no chão, sem sequer a estima de uma gorda caixinha ou do pagamento dos 10% opcionais.

Mas a dinâmica derivada do choque entre trabalhador e trabalhador de folga presente nas mesas e cadeiras mundo a fora tem mudado bastante desde que os jovens empreendedores passaram a assumir os negócios dos pais, e tal qual Midas ao contrário que são, ou seja, tudo em que tocam vira merda, a carreira de garçom que parecia uma opção mais digna do que o serviço militar ou a advocacia para jovens desempregados exercerem algum tipo de perversidade remunerada, agora esses profissionais tem não só que abandonar as clássicas vestimentas presente em nosso imaginário como as camisas brancas surradas e as gravatinhas borboletas, como também deixar para trás o andamento da boa e velha arte de servir sem simpatia. Ou, de servir mal, para servir sempre.

Agora, além de ostentarem trajes que mais se parecem com os de um sorveteiro de filme americano, como bandanas e aventais de cores quentes, há que se carregar sorrisos e tolerância nas bandejas cansadas com intimidade forçada de clientes. Como se não bastasse sobreviver a salários ridículos, patrões carrascos e a canções ao vivo de voz e violão, agora a estes nobres profissionais lhes são exigidos, não só a sobriedade total em alguns casos, como até mesmo que expliquem que os 10% na conta são opcionais, embora o couvert artístico seja obrigatório – mesmo que eles sequer ganhem adicional insalubridade por passar o dia inteiro ouvindo Gaúcho da Fronteira ou Homem-Aranha, de Jorge Vercilo.

O clássico tipo que só falta bater em você, está perdendo espaço para o garoto invisível de tablet na mão, ágil e faceiro, pronto a lhe recomendar o especial do dia e o melhor vinho da casa, mesmo que na pétrea linguagem das comedorias ter um atendimento rápido, com muita simpatia e atenção nunca significou que você é uma pessoa bem vinda ali ou que seu garçom da vez o estima, muito pelo contrário, isso significa que seu atendente quer o mais rápido possível que você dê o fora do lugar. Não importando se você irá deixar caixinha. Ele e principalmente, o ambiente, querem se ver livre da sua cara.

Portanto, estime a casa onde você é driblado a cada vez que levanta a mão ou solta assobios. Solte muitas estrelas nos aplicativos onde o garçom lhe joga as coisas na mesa ao invés de pousá-las e diga por aí que o olé que você tomou no salão significou estima e apreço por sua presença.

Entenda também este e outros sinais corporais emitidos pelo seu garçom, que apesar da modernidade, persiste em sua alma servil; por exemplo, ao lhe entregar o troco se ele demorar em lhe passar as notas ou mesmo se ele te colocar de forma constrangedora impedindo-o de sair da mesa, praticamente imprensando-o na cadeira, e com a cintura quase rente a sua cabeça, saiba que aquilo é mera formalidade da função e não um convite ao erotismo, pois ele não está só pedindo, mas sim dizendo que aquela gorjeta é dele.

Caso você seja um durango ou mesmo não entenda a hostil dança que ambos praticaram durante o tempo de quatro chopes e uma porção de frango à passarinha, não se preocupe, mesmo o mais embrutecido anotador de pedidos irá lhe dizer, obrigado – mesmo que seus olhos e sua alma estejam dizendo: 

Fela da puta! Que em francês significa volte sempre.

 

domingo, 25 de outubro de 2020

MONITORADO PELA MÃE


 

 

É quase meio dia e o sol a pino lá fora castiga as moleiras do bebes desprotegidos criados por pais adolescentes. Acordado desde as seis, o neném Luiz Claudio, de 8 meses, despertara de sonhos intranqüilos onde se via metamorfoseado num desses garotos criados por gente cujo o perfil nas redes sociais possuem avatares de anime. Porém os quase 5 mil seguidores da sua conta no instagram tem sido um pesadelo e a verdadeira causa de suas brotoejas.

A pomada para assaduras Cetrilan é a cura desse mal e foi aberta há dois dias num vídeo no youtube sob o título de “resenha” por sua mãe, Poliana, que acabou de acordar e confere quantas pessoas visualizaram o vídeo e se este já possuem indícios de monetização. Ela sorri para o celular e ainda deitada, mendiga meias para recém nascidos numa loja virtual, elogia outros perfis de bebes e curte fotos sempre praticando o código de Hamurabi: Like por like, seguidor por seguidor. Responde tudo numa linguagem abobalhada, cheia de emoticons e nos dias inspirados até consegue ser um ghost-writer decente, fazendo textão como se fosse uma criança alfabetizada, mas com pouca leitura e dificuldades de interpretação textual.

O menino real, de carne, osso e catarro não para quieto e tenta se erguer mais uma vez sob o colchão mole, enquanto segura e morde as grades do berço que rendeu 2,000 visualizações ao ser desembalado sob o título de “recebidos”, embora tenha custado uma pequena fortuna para a avó materna dele, que é no fundo quem segura a onda da casa. Os paninhos em volta parecem uma Tereza de lençóis. Quando finalmente fica em pé, Luiz Claudio arremessa um coelhinho e fica olhando a pelúcia quicar, como se estivesse calculando se uma queda dali o machucaria muito.

O movimento do bichinho desperta a mãe do torpor virtual. Ao pegar a segunda pelúcia para atirar longe, ele sente uma sombra se aproximar do berço e ao virar o rostinho, quase bate com a cara no celular de Poliana, que descabelada e com um terrível bafo matinal pede que ele repita para a câmera as palavras: Mamãe, mamãe, bom dia...

O bebe Luiz Claudio respira fundo, segura com força a barra do berço e baixa a cabeça decepcionado. Depois de alguns segundos nessa posição, lembra-se que ainda está cagado e olha bem fundo naquela lente da verdade e estoura, num português tão claro quanto as cores de suas vestes infantis:

-- Porra, mãe, todo dia isso! Eu ainda estou sujo e com fome e a senhora já quer vídeo. Caceta, mãe, ninguém vai nos dar nada, e o que deram (um jogo de meias e um andador) é por pena dessa minha carinha de constrangimento nesses vídeos e tudo com cara de sobra de estoque. Me limpa ou passa a minha pomada, ou me deixa quieto, então! Sem contar que está cheio de gente mal intencionada e mal caráter aí por trás desses stories, gente que fica prestando atenção mais na cenografia, nas ausências aqui de casa do que em mim; olha ali aquelas paredes descascando, que vergonha... E daqui a pouco... Daqui a pouco chega a vovó e é a mesma coisa, vídeo, foto, boomerang... Poses e mais poses. Eu quero viver de verdade, mãe! Viver! Olha minhas últimas fotos, meus últimos vídeos, veja minha cara de estafa com essa ladainha toda. O dia tá cheio, mãe, ou a senhora acha que aqueles monta-montas vão se levantar sozinhos? Ou aquelas massinhas coloridas irão se modelar do nada? Tenho o cachorro pra beliscar, tomadas para enfiar a mão, paredes para riscar e dúzias de brinquedo e micro-pecinhas para colocar na boca. Vamos levantar dessa cama! E eu adoraria que nessa casa tivesse pratos nas mesas para puxar a toalha, mas a senhora nem cozinhar sabe... Dá um tempo, façam outro filho! Ou se ocupa com o papai, tente tirar ele daquele maldito joguinho de computador, pois ele não engana ninguém com esse papo de trader. Sei lá, arranja um trabalho ou pede a vovó dinheiro para viajar e me deixa na mão de uma baba relapsa, me deixa só, me larga numa escola e esquece de ir me buscar uma tarde pelo menos... Ou não, ou não! Me coloca só no chão, por favor! Mas sem esse celular, me seguindo feito um encosto, sem essa sensação de milhares de pessoas me agourando. Pelo amor da Pepa Pig ou do Lucas Neto, acredita em mim quando eu digo que eu não tenho mais ideia do que fazer, não agüento mais repetir as mesmas caretas ou pedaços de palavras, babar sempre nas mesmas horas; sem contar que a sua imitação de neném, sempre que eu falo alguma onomatopéia é... É uma das piores da nossa família, é irritante demais. Será que seus amigos aí do celular não te dizem isso? Não, né? Olha isso é um sinal. Pelo menos, mãe, me dá um tempo para me inspirar, pra trazer algo novo, pois vamos ser sinceros, eu não sou bonito e certamente vou puxar as pernas cangaias do papai... Vamos admitir que ninguém vai me chamar pra comercial de TV ou novela. Se ainda eu fosse uma menina, já que nessa exposição toda que a senhora me submete, até os doze, treze anos na aba do instagram da mãe, quem sabe eu até despertaria a atenção dos tarados, mas não... A senhora segue essa linha, bebe cristão aí... Bem démodé. Pense, que público é esse que buscamos? Daqui a pouco nascem meus dentes e depois perco a graça, admita, não é sempre assim? Ou vai me filmar até que me nasçam os bigodes? O que foi? Não falo numa linguagem que a senhora entende? Não me diga que toda essa devassidão da minha vidinha, de meus movimentos atrapalhados não te faziam sequer desconfiar do público que tinha acesso e consumia isso? Porra, mãe! Permita-me então alguma outra infelicidade na infância que não essa, que não essa desgraça da superexposição, pois ainda temos pouco material pedagógico na psiquiatria infantil para lidar com os traumas advindos disso, de gente criada sob a égide de “monitorado pela mãe” ou de “mini-fashionista”. De infância e juventude com pais ausentes, muitos artistas se formaram pelo menos; digamos assim, há uma base forte para que isso vire algo. Me dá isso que eu quero, me dá a distância feito o papai nos dá, me dá... Olha! Ainda faltam dois meses para os meus dentes nascerem, me dá um tempo até lá pelo menos, por favor! Um respiro; pode ser? Pode ser, mãe? Fala alguma coisa... Fala!

Poliana, atônita, olha bem fundo no visor do celular e demorando a acreditar, diz, com voz de choro:

-- Droga... Deu memória cheia... Dá para falar de novo, bebe? Não gravou... Repete pra mamãe, de novo, repete! Dá, dá, dá...?

CHURRASCARIA

 


Em algum ponto entre os municípios de Teotônio Vilela e Junqueiro há uma placa na beira da estrada que chama a atenção dos motoristas mais atentos e famintos que trafegam pela BR 101 Sul do estado de Alagoas: 

“Churrascaria O Gaúcho Sincero - A única que fecha para o almoço!”

Possivelmente adquirida num esquema de permuta entre uma distribuidora de cervejas e o estabelecimento, a placa publicitária é que de melhor e mais moderno você irá experimentar no respectivo restaurante de horários alternativos, serviço ousado e decoração cansada; passado a surpresa inicial, para ficarmos nas metáforas automobilísticas, é só ladeira abaixo.

Mesmo as raias da falência, o empresário Leopoldo Soares, radicado em Alagoas há mais de quarenta anos, todos eles dedicados a fiel tradição gaudéria de assar carne e cobrar caro por isso, parece mais interessado em agradar a si mesmo ao invés dos clientes que ali pisam, vide o mantra que repete sempre que estende o cardápio aos recém-chegados:

-- Mais barato, só na concorrência!

Por falar em preços, outra curiosidade é que a carta de opções da Gaúcho Sincero é idêntica as dos outros três restaurantes presentes na região, oferecendo os mesmos pratos, carnes e bebidas, inclusive nos erros ortográficos a semelhança entre as comedorias se destaca.  Questionado sobre o tempo de preparo de um galeto gratinado, acompanhado de arroz com brócolis, Leopoldo, que ostentava um terno branco de corte barato e grosseiro, respondeu de bom grado – com seu forte sotaque gaúcho – que não, que era rápido, que o pedido levaria só o tempo do menino ir comprar ali no vizinho. Isso se a corrente da bicicleta não estourasse no caminho, alertou.

Embalado pela modéstia da casa também está o jovem chef da casa, um adolescente magérrimo de 14 anos de dentes proeminentes, vasta cabeleira, leve semelhança com Leopoldo Soares e que fica prostrado na cozinha sempre de olhos atentos aos movimentos do patrão. Pronto a sair em disparada em busca do sabor perfeito – 10% e gorjetas incluídos.

O nome atual do estabelecimento, como fica claro, reflete um pouco o cansaço e a resignação do gaúcho de Sarandi que alega ter tentando de tudo para obter algum sucesso no ramo alimentício, mas que em todos esses anos só conseguiu tocar naquilo que chamamos de subsistência e nos melhores anos, na sobrevivência.

Feito um jogador de futebol, que ao passar dos anos vai jogando em divisões inferiores conforme a decadência física, Leopoldo que começou de garçom na Churrascaria O Lançador, na orla de Maceió, conseguiu juntar dinheiro e montar seu próprio negócio no interior do estado. 

Tentou de tudo que se pode imaginar para ocupar as 22 mesas do pequeno salão: De jovens garçonetes à cantores sertanejos, passando por rodízios de carne, pizza e sushi no cardápio; indo de comerciais em rádios, perfis em rede sociais e almoço grátis para Carlinhos Maia, mais camisetas, bonés, chaveiros, promoções relâmpagos, chegando até a contratar garçons sósias de artistas de hollywood e animais silvestres engaiolados no jardim, além de alugar espaço kids, fliperamas e antena parabólica com futebol internacional, futebol americano e basquete para deleite dos desocupados que por ali deslocavam se consumir uma água mineral...

O terno branco que usa diariamente no velho esquema lavou-vestiu, foi inspirado no de Marcello Mastroianni em A Doce Vida, que Leopoldo Soares afirma remeter a uma dessas tantas empreitadas que iam lhe roendo, feito a gastrite roeu o estomago dos poucos ratos da despensa, ano após ano, o minguado lucro que obtinha na tentativa de inovar e cativar a clientela da região.

A vestimenta foi tudo que lhe sobrou, além, é claro, da estrutura do prédio e do menino-cozinheiro, possivelmente fruto de algum romance do proprietário com alguma funcionária.

Tudo bem que uma coisa é Marcello Mastroianni usar ternos brancos e ficar bonito, mas outra coisa é o gaúcho Leopoldo usar terno e parecer apenas um capo italiano; mas mesmo com sua aparência de ressaca e o mau humor no atendimento, a empresa tem experimentando uma leve melhora na economia, mesmo que a dúvida permaneça no ar se esse relativo sucesso é por causa da qualidade da cozinha (do vizinho – e da velocidade cada vez mais efetiva do boy-garçom) ou do respiro que os moribundos sempre experimentam antes de empacotar dessa para uma melhor. No caso da Gaúcho Sincero, antes de beijar a lona.

Para Leopoldo, que em alguns momentos demonstra certa cultura e algum grau de sofisticação nas respostas fruto quem sabe do canal de arte da TV a cabo que vara as madrugadas assistindo, a falência total, a verdadeira falência só se daria se a Churrascaria pegasse fogo, caso contrário ele seguirá aberto, ainda que as brasas da churrasqueira estejam sempre apagadas e os botijões quase secos. Mas em caso de fogo, eu acho que salvaria o fogo, garante. Mentira, corrige-se, salvaria o piá, diz apontando para o menino na cozinha. 

Que durante a escrita desse artigo, aproveitou-se da distração da chefia e entornou duas Coca-Colas escondido, mas ao ouvir seu nome gritado pelo patrão, subiu na bicicleta e disparou para comprar mantimentos, mesmo que desconhecesse o que era pra comprar ou fazer.

-- Tá vendo! É por isso que o pagamento tem de ser antecipado – Completou Leopoldo.

 ***

(Está foto do meu pai, suando a camisa, serviu de inspiração para esse texto.)

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

PAPAGAIOS NA IDADE MÉDIA

  



Dia desses morreu Tancredo, o papagaio de uma senhora aqui do prédio. Provavelmente a causa mortis do papagaio seja saudades do antigo dono que partiu dessa para uma melhor no começo de 2020. – Aliás, qualquer outra partida deve ser melhor do que continuar encarando 2020, imagino eu.

Mas o último vôo (papagaios voam?) de Tancredo foi uma boa notícia para o nosso bairro, já que a ave tinha o desagradável hábito de toda a manhã ficar catalogando os moradores que passavam na calçada em frente a sua varanda. “Feioso!” ou “Bonito, bonito!”. Seriam papagaiadas ensinadas por seus donos, talvez? Além de desfiar toda uma leva de sortidos palavrões.

Da minha janela não conseguia bem ver a reação das pessoas ante a apreciação estética de um papagaio preso a uma corrente num poleiro velho. Somente uma vez ouvi alguém responder: “É mãe!”.

Por falar nelas, a minha julgou que o padecimento de seu emplumado vizinho era algo digno de um obituário. Não sei se o mesmo ocorre com os amigos escritores, mas sempre que morre algum conhecido minha mãe me cobra algumas linhas, alguma homenagem ou parafraseando Drummond alguma poesia, embora na maioria das vezes eu atue como o Tancredo e diga somente se o indíviduo em questão era “feio”, “bonito, bonito!” ou “bandido!”.

 

-- O irmão do seu pai, o Tio Aracy, lembra? Era um baita personagem... Faleceu, coitado.

-- Mãe, o cara casou com a própria sobrinha que ele ajudou a criar!

 

-- Aquele velhinho que ficava na esquina da padaria morreu... Tadinho... Merecia uns versinhos, né?

-- Que nada! Não podia passar uma mocinha por ali que ele ficava mostrando a língua e falando putaria...

 

-- Meu gato morreu. Lembra com ele era diferente. Valia uma crônica!

-- Ele só fazia xixi fora da caixinha de areia... E a senhora já não o suportava mais.

 

Creio que foi Alejandro Zambra quem disse que você só se é escritor de verdade quando as pessoas (seus pais?) o veem escrevendo e não mais o mandam comprar o pão. Talvez por me negar a escrever sobre Tancredo fui obrigado a ir até o supermercado.

Na quarta vez que tenho que mudar de calçada para evitar cruzar com alguém sem mascara, dou meia volta e retorno para casa, arrependido de não ter feito amizade com a Dona do Tancredo para lhe ensinar a dizer da janela: “Cadê a mascara, seus arrombados?”.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O UNIVERSO NUMA CASCA DE NUGGETS



 


Recentemente recebi a notícia de que precisarei fazer uma cirurgia de desvio de septo. Resignado, corri o mais rápido possível para fazer os exames de praxe. Tão ocupado estive com esses afazeres que nem pensei muito na tal cirurgia e no aspecto vampiresco do meu otorrino. Só me apavorei de fato quando me dei conta de que precisarei passar 24hs em observação dentro de um hospital, dividindo o espaço com outro convalescente.

O auxiliar do médico, que carinhosamente apelidei de Igor – sendo ele o assistente do Dr. Frankenstein – notando minhas dúvidas e angústias sobre o pós-operatório, perguntou se eu sofria de nosocomefobia (medo de hospital, ele traduziu depois) ou de algum tipo de psicopatia social já que por três ou quatro vezes lhe perguntei se não podia ser liberado no mesmo dia e se não era viável me colocarem num quarto sozinho.

– O que me apavora é passar 24hs assistindo a TV aberta – confessei.

***

Em outra época, quando só havia passado por uma cirurgia de fimose e não era tão metido assim, fui um ávido consumidor de canais abertos. Assistia desde programas de culinária que me auxiliavam a deglutir o almoço, até excelentes shows dominicais sobre como ser um bom motorista de caminhão ou um exímio pescador esportivo na bacia amazônica. Sem contar o mestrado que imagino ter conseguido como ouvinte no Telecurso 2000.

Um dos meus preferidos era um programa de culinária exibido ao meio dia na Band. Não lembro o nome do gordinho careca que apresentava, recordo apenas que ele mais parecia um torturador fazendo alta gastronomia do que um chef. Não que eu entenda muito de pratos, talheres e sabores, mas sendo nuggets de frango e arroz congelado a reprise diária, até se ele preparasse um ovo frito eu iria chamar de haute cuisine.

Meus pais trabalhavam muito e só chegavam a noite, hora em que mal bebiam um copo d’água e já iam capotar na cama. Creio que se eles houvessem olhado com mais carinho para o interior da geladeira teriam visto meu estoque de caixas contendo os pedaços de papelão empanado.

Uma faxineira, que mais parecia um índio de madeira (incluindo o silêncio), vinha semanalmente espalhar a poeira da casa e preparar as porções do arroz-Highlander. Porém, isto não é desculpa para uma dieta ruim, a questão é que entre as tranqueiras que um nugget pode levar dentro de si deve haver algo ali ia que corroía meus neurônios aos poucos, fazendo com que eu sofresse de uma esquizofrenia galinácea, tanto que a noite, ao ser indagado por minha mãe o que almoçara, tratava logo de cacarejar:

– Hoje fui de Peixe ao Scalope… Aprendi na TV, vendo um cozinheiro preparar…

Ela, cansada, passava até o quarto comentando que aquilo era muito bom, sem contar que eu parecia fazer milagres com o dinheiro que sempre ficava na cômoda para uma eventual emergência.

Não lembro quando comecei a desenvolver a técnica de mentir para mim mesmo, sei que aquilo foi tão natural quanto ir dormir com uma vela acesa em cima do sofá e não acordar mais. Consigo apenas me ver, em frente a antiga Semp Toshiba, feito um samurai no alto de uma montanha treinando ao pôr do sol meus golpes, sincronizando o que via na tela com o que restava no prato, embarcando num spaghetti al pesto tendo a boca pequenos pedaços de botinas, pés de galinha e conservantes. Após o banquete, mudava de canal e saboreava os desenhos, o Chapolin e até aquele seriado Blossom, tudo sem culpa. Sequer notava quando os deuses, ou a Palmirinha Onofre, reprisavam o episódio do Pica-Pau faminto onde ele devorava até as folhas do calendário.

Algum ingrediente alucinógeno deve brotar da mistura de exemplares da Revista Hermes® triturados com meia dúzia de miúdos de frango aliados aquela realidade virtual, pois cheguei ao cúmulo de numa tarde treinar o meu discurso na sede da ONU relatando a descoberta da cura para a fome no mundo. Meus antolhos caíram no dia em que desmaiei na quadra do colégio e ainda delirando falei para a enfermeira do posto de saúde:

– Hum, muito bom esse camarão com queijo roquefort, foi a senhora que fez?

– Menino, você tá tomando soro na veia…

De sobremesa recebi a intimação de minha mãe para todos os dias ir até o seu trabalho e almoçar sob sua supervisão. Após um prato com feijão, verdura e carne de verdade finalmente recobrei a consciência.

E só então lembrei que meus pais eram donos de um restaurante.

Texto originalmente publicado em 25 de setembro de 2017 no site da REVISTA DOS ESCRITORES MUITO ANÔNIMOS (EMA)