quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

25 COISAS PARA NÃO SE FAZER (NUNCA!)


(La Repubblica - Emiliano Ponzi)


I – Tentar ler a Gazeta de Alagoas;

II – Ligar a TV;
 
III – Mudar de Canal;

IV – Acreditar na felicidade alheia estampada no facebook;

V – Acreditar na inteligência alheia estampada no facebook;

VI – Criar um perfil no instagram;

VII – Se envolver na última ‘grande’ polêmica do mês em fóruns da internet (este mês: Rolezinho);

VIII – Escutar qualquer CD solo do Renato Russo;

IX – Ir malhar;

X – Se culpar por não ter feito faculdade;

XI – Fotografar a si mesmo;

XII – Procurar esquerda ou direita no atual cenário político social brasileiro;

XIII – Receber visitas de familiares;

XIV – Tentar achar algum possível candidato ao governo de Alagoas que não seja um Frankenstein dos últimos ou de si mesmo;

XV – Puxar assunto com alguém no Whatsapp;

XVI – Tentar aprender pôquer;

XVII – Começar uma DR;

XVIII - Ler trechos de livros do Nicholas Sparks, do Paulo Coelho e da Martha Medeiros nas secções de papelaria de supermercados;

XIX – Telefonar para algum amigo metido a artista e perguntar: “E aí quais as novidades?”;

XX – Ir no QG farol, Tanque Cheio ou qualquer equivalente pedir uma cerveja nacional e ouvir pagode;

XXI – Começar a fumar crack;

XXII – Ir na missa;

XXIII – Aparecer na reunião de condomínio;

XXIV – Passar uma hora do dia inventando uma categoria, apenas por achar que vinte e quatro é um número de azar;

XXV – Alimentar uma gastrite nervosa por tudo isso, inclusive pele própria gastrite.

AVISO: Com exceção do passo XXI, o autor do texto experimentou todos os programas de índio listados num único dia. 

Atualmente passa bem.

Cid Brasil

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

TIO FLORISBERTO



(Michel Nash)




“Talvez só podemos ser realmente babacas uma vez na vida... Só uma. Me refiro a algo que nos fará chegar até o último dia lamentando... Eu já realizei a minha, e esse é o único consolo que tenho.”


Tio Florisberto não quis falar muito sobre. O paragrafo acima foi me dito cheio de reticências, pausas e mudanças bruscas de assunto: “E o Flamengo, hein?”, “Poxa, esse ano será longo: Copa do Mundo e eleições...”, “Você viu o novo filme de Brian de Palma?”. Talvez, o Tio Flori, como agente costuma chama-lo, quisesse que eu embarcasse num desse assuntos e o deixasse em paz (ou em tormenta) com seu arrependimento mor. Era a primeira vez que conversava com ele pessoalmente. Noticias suas só me chegavam pela boca de meu pai através de fotos, ou de cartões postais que ele mandava de lugares que nunca visitou e diferentes de onde estava, como Madri ou Xangai – “Só por que achava bonito a paisagem, e claro, por que não tinha fotos minhas...”, desconversava.


Retratos dele há vários aqui em casa, em todos ainda esbanja um sorriso dentuço e uma cabeleira amarela; outros ele me mostrou no celular e duas pequenas dobradas ao meio retiradas da carteira. Ao ver a última foto, com uma leve marca d’água de 1998, lembro de outras suas que vi na última experiência genealógica que empreendi por gavetas e armários daqui de casa, após uma discussão de uma hora com meu irmão sobre eu ter possuído uma casa na árvore quando criança. – Dela, da mansão do abacateiro, eu recordava de maneira viva de pelo menos o piso, com seu chão todo rente, feito de fórmica... Para minha desilusão, só cheguei a pregar o primeiro degrau. Deve ser mal de família, pois dos retratos em preto e branco das várias vidas do meu tio inédito, sempre estava ele com semblante tranquilo, tendo como cenário uma casa sem reboco, de paredes com os tijolos ainda a mostra. Meu parente que nunca se terminava. Depois, achava outra foto dele, ora segurando uma criança ora abraçada a alguma mulher, e cada vez mais seus cabelos louros rareando e em todas as casas lá, recém-construídas, com pouca mobília e muita esperança nos sorrisos e olhares.


Deve mesmo ser genético. Eu comecei tanta coisa que não terminei, e por vezes alimento uma gastrite por mulheres e projetos artísticos inacabados. Mas será que o tio sem reboco ao meu lado se pergunta aos 71 “meu deus, o que fiz da vida?”. Nos dez minutos em que ficamos conversando, os únicos de nossas vidas, durante o churrasco de boas vindas, aniversários atrasados e já de boa viagem para ele, cantamos só um parabéns e tiramos uma foto.  Ou melhor, tiraram uma foto dele de supetão, nela é possível vê-lo sentado ainda com uma cara de surpresa pelo bolo de chocolate inesperado (e indesejado, já que ele detesta bolo confeitado) – Do seu lado, estou eu, bem mais novo, mais gordo e com menos bom gosto nas roupas, ainda a olha-lo, na espera de que ele contasse qual o seu maior arrependimento.


***


Nessa manhã chegou um postal dele, com uma ilustração da torre de Pisa na Itália, – atrás ele me saúda, perguntado como vai o poeta da casa e se já casei. Nunca escrevi nenhum verso publicável, e nem a única casa que desejei consegui terminar – o cartão vem do interior do Paraná, junto de outra foto do Tio Florisberto em outra casa recém-construída, e com uma carta onde ele conta que seu maior arrependimento foi não ter se casado com uma aero moça que ele conheceu. – Finalmente está explicado os postais...



Cid Brasil

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O NATAL DE FLAUBERT



(María María Acha-Kutscher)



Há um ano, eu deveria ter acabado de assistir a “Festa de Babette” no DVD, e ter dado o meu natal por satisfeito. Pra quem não viu, creio que não há noite perfeita, dependendo da companhia ou da solitude. Há um ano, eu sequer sonhava – Bom, na verdade eu sonhava sim, mas não ousava – em escrever: Crônicas, romances ou sequer e-mails decentes para os amigos. 

Hoje, ainda fico devendo no quesito referente a correspondências. O que não quer dizer o mesmo em relação a espalhar umas mesquinharias pelo papel e dar a isso o nome de crônicas, ou até mesmo de estar a quase seis meses adoecendo e gozando por um livro, e vendo que meu ano vindouro será todo dedicado a isso: Escrever. Abandonei algumas coisas esse ano, tudo para aprimorar algo que me dá prazer (e uma angústia) na mesma medida, uma coisa que até o ano passado eu dizia que não fazia, por respeitar demais a literatura. Dia desses li um livro de correspondências do escritor francês Gustave Flaubert, e num dos trechos onde o autor de Educação Sentimental, falava para os amigos – Ele sim era além de escritor de verdade, óbvio, era um grande missivista, assim como todo escritor decente -, mas lá ele contava nos intervalos de seus romances (escreveu ‘só’ quatro romances, uma novela e um livro de contos, digo só em se tratando que ele dedicou setenta anos dos quase oitenta que vive apenas a escrever), sim, lá Flaubert falava não só das agruras quase físicas que seus romances o infligiam, como das desistências de um estilo de vida burguês, que incluía a família e Paris no inicio da Belle Époque; além das moçoilas, fanzocas, tietes e também não fazia questão da companhia de gente como Victor Hugo, Charles Baudeleire e Émile Zola.

Numa das cartas, para uma moça a quem ele chamava de Musa, ainda que quase intocável, ele diz: “Tenho um monte de gostos (...) dos quais me privo; mas é preciso privar-se de tudo quando se quer fazer alguma coisa. Ah! Que vícios eu teria se não escrevesse!” Noutra, a única em todo o livro datada do dia 24 de dezembro (de 1862), ele escreve a um critico rebatendo todos os pontos do cidadão sobre um de seus livros (Salammbô). O cara já era Flaubert, e mesmo assim não gastava o vigésimo quarto dia do mês doze em destrinchar um Peru com farofa, mas sim em descascar um idiota que ousou lhe acusar de ‘incensado’.

O pobrezinho morreu (pobre) e possivelmente de tanto escrever – Faleceu de hemorragia cerebral -. Se a dona Neide do 501 aqui do prédio o conhecesse, diria: “Ele se gastou”. Mesmo assim foi a vida que quis, e muitas vezes deixava claro que não queria, principalmente depois dos processos e explicações que teve de dar após lançar Madame Bovary, escrever para a posterioridade, fazia aquilo apenas para se distrair de toda a vulgaridade, banalidade e vazio que era, e é, a existência humana. Achava a vida tão horrorosa que a única maneira de se distrair dela, era evitando-a.

Um grande sujeito Flaubert. Não ouso chegar aí, visto que passei meu último natal assistindo televisão, embora esse tenha gasto quatro horas deles escrevendo esta crônica e parte do meu romance. Mas, por via das dúvidas, vou ali esquentar um pedaço de pernil no micro ondas.

Cid Brasil