domingo, 8 de setembro de 2013

EXPRESSO



(Jackson Pollock)
(Dedicado aos agentes da CIA)

Rita digita: O que seria de nós se não tivesse isso aqui? Léo responde: Ora, nos sempre teremos Paris, bebe! Rita: Que fofo! (Seguido de um coração). Lola mandou em caixa alta para Alfredo que o momento certo deles se ligaram não era no dia seguinte, mas sim quando desse saudades. Alfredo digitou, dentro do cinema para aquela moça adicionada recentemente, um efusivo: ok.

Troni@ escreveu um imenso e-mail para LaraFritas@, fez um texto tão choroso que até escorreram as vírgulas e os acentos. Digitou aquilo de um tablet vagabundo no meio da fila de um supermercado, não podia esperar chegar em casa, era urgente o que Troni@ tinha para dizer. Dois minutos depois, LaraFritas@ leu e se prometeu responder quando chegasse em Xangai, só não contava que receberia um torpedo escrito na língua do diabo no bar do Aeroporto Pudong assinado por Glov, que colocaria Troni@ no limbo e nos remetentes de Spam. Dois anos depois, enquanto arrumava suas coisas para voltar para Maceió e apresentar Glov para a família, - E já sabendo húngaro muito bem; Larissa releu o que o guardanapo dizia: 

“Seja de onde for, seja para onde for, seja de onde vier, saiba que acabou fazer alguém esquecer: De onde veio, pra onde vai e onde está. Prazer, Glov”.

Duas e meia da manhã da data universal de ontem, este que vos narra recebeu a seguinte mensagem: “Cid, querido! Encontrei aqui nos arquivos da vida, uma antiga conversa nossa pelo MSN... Você disse que me amava, e que queria ser humorista, hahaha. Lembra disso?” Não me lembrava que escrevia coisas assim na mesma linha. - E me conhecendo, é provável que a parte sobre ama-la tenha sido digitada com toda a veracidade que alguém com quinze possa conseguir. Ou, pode ser também que assim como ela na época, eu agora não tenha entendido a minha própria piada.

Na mesma hora, numa cybercafé de uma loja de conveniências El-Chapolin percorria bate-papos na internet querendo rir, passar o tempo e se possível encontrar uma namorada que jogasse Playstation – Tudo nesta desordem. Se suas pretensões fossem mais adultas naquela hora, ele não teria esculhambando Rosa_Mundo_H. Teriam sido grandes amigos. Rosa_Mundo_H, teclava de casa e de cuecas: Reclamava do vazio da existência, de pessoas nas baladas sem caráter e de quem ninguém tinha assistido ‘Pacto de Sangue’ no canal cult-movies. El-Chapolin tinha assistido, mesmo entre clientes bêbados e outros suspeitos que atendia, tinha adorado o filme. Após Rosa_Mundo_H revelar que era homem, se esculhambaram até El-Chapolin abandonar a sala Sarandi.

Mais cedo: Clóvis teve de repetir em voz alta todas as conversas que teve com Yara Ninfetinha, leu pausadamente as obscenidades gentis, as treze vezes que prometeu ser o professor se ela fosse aluna e cinco vezes o nome frigida que estava sublinhado nas folhas de A4. Leu tudo de novo chorando e pedindo desculpas pelo telefone para Liziane, a dona do perfil Yara Ninfetinha e mãe dos filhos de Clóvis.

Quando Laurito terminou seu expresso, parou de deslizar o dedo no visor do celular e pediu a conta, pagou o café e se foi. Nem falou se gostou ou não do que leu.

Cid Brasil

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

SÓ ISSO?



(Emiliano Ponzi)



Tem dias que só falta abrir o computador e a crônica já estar lá, noutros só com cesariana no teclado, mas tem aqueles em que ela só falta se enroscar em nossas pernas no meio da tarde, da rua ou da sala. Dia desses, me sentindo devedor também com quem já não lê ou escreve crônicas, fui até um lugar que basta uma caminhada por ele para brotar pensamentos de “Amor & morte” e entre dribles por moradas alheias, percebi de longe, algo como um cata-vento girando, girando, girando... Já perto de onde jaz o senhor: Adelmo de Medeiros França vi que se tratava de três círculos de diferentes tamanhos, suas cores eram compostas por fitas coloridas presas do aro até o centro de cada circulo que quando giravam formavam uma espécie de aquarela.


Talvez aquilo fosse criação do próprio senhor ali descansando, ou algo que ele gostasse muito de ficar olhando enquanto desfiava fios de pensamentos sobre os mistérios existentes abaixo das nuvens, ou aquilo simplesmente pode ter sido fincado ali por algum amigo gaiato do senhor Adelmo, lhe pregando assim uma última peça. Como eu nunca vi nada igual em shoppings ou feiras de artesanatos com climas de shopping, aposto que aquilo lá é mesmo invenção do senhor Adelmo de França, que pela foto perto do seu nome tem mesmo cara de professor pardal – É mais um para coleção de “Avôs que gostaria de ter”.


A residência do senhor Adelmo e de meus entes, tem uma cara de parque que não existe em Maceió. Possui um silêncio que nem o culto da igreja evangélica ao lado consegue atrapalhar. Os vivos gritam suas preces, que eu imagino que eles é que devem se incomodar com o silêncio do lado de cá, se irritando por verem no vizinho uma metáfora para suas perguntas. Não contentes, naquela tarde desafinava por lá uma banda gospel tão melódica quanto os ‘Sex Pistols’.


“Seria a vida só isso?”. É a pergunta que pela quinta vez me faço desde que entrei, percebo um senhor sentado num banco olhando para a dança que cinco eucaliptos fazem, estaria ele fazendo as mesmas perguntas que eu? Em pleno sábado, próximo das seis da tarde, num país tropical só existe o senhor do banco para me tirar essa dúvida naquele lugar. Como eu, é possível que ele também diga: “Que bonito!” para os eucaliptos já negros a frente do céu cinza desta tarde. Foi por me ver dizendo o que aquele senhor representava para mim a quinze metros, que imaginei possuirmos as mesmas dúvidas sobre as fichas do fliperama da existência.


Ele deve pensar: Tem gente que dá a volta ao mundo, beija mulheres espetaculares, tem filhos, publica livros, mora na praia ou em Paris e no fim ainda faz a mesma pergunta: “É só isso?”. E eu: Enquanto outros devem chegar aos oitenta do segundo tempo, sem nunca terem saído desse bairro simplesmente por que ainda não viram todos os movimentos que um eucalipto faz enquanto perde suas folhas através dos humores dos ventos, e que no fim ainda desenham com os lábios dizendo: “Que bonito!”.


Foi só na volta, que percebi o cata-vento do senhor Adelmo.

Cid Brasil

domingo, 25 de agosto de 2013

NÃO ESTÁ CHOVENDO



(Franco Matticchio)



Nunca imaginei como me portaria diante do inevitável reencontro.

Se houvesse saído de casa com essa suspeita, teria ao menos calçado um sapato mais bonito. – É isso! Vou me despedir de minha companhia com promessas de que voltarei logo, ‘pois vou só trocar de sapato’. – Não, não adianta fazer isso, ou agir como se estivesse numa festa. Sou o único que não posso fingir, pois existe alguém neste salão que me tem. Lamento pelo ‘está-é-a-última-carta-que-te-envio.’, escrito e enviado semana passada. É nisso que penso enquanto sigo o garçom.


A sabedora de meus sentimentos está na extremidade esquerda desse quadrado, e sabe que só existe uma pessoa dentre as quatrocentas e vinte e duas almas aqui confinadas que seria capaz de arranjar desde um vinho decente até inventar histórias que a fizessem sorrir ou mesmo pedir que a banda parasse e que todos se calem por um minuto em respeito a ela que tem dor de cabeça... E esse convidado, não é o grandão que cochicha em seu ouvido neste momento. Quando me vejo no espelho do banheiro não é um filme que assisto diante dos meus olhos – apesar de todos os clichês possíveis de uma festa de casamento – Mas sim um livro contendo todas as minhas falas, frases e pensamentos durante o tempo que estive com ela. Até mesmo as intermináveis ligações pela manhã estão lá transcritas – assim como os meus tropeços na língua portuguesa como: Confundir eminente com iminente - O epílogo contem todos os bilhetes, bilhetinhos, guardanapos, e-mails, sinais de fumaça, trabalhos e despachos que fiz. – Ao retornar, a única coisa iminente neste salão é nosso reencontro. 


Vou cair, é o que penso, pois sustento muita coisa está noite. Agora também uma cabeça contendo olhos e sorrisos de uma desconhecida que nada sabe.


(Eu deveria ter imaginado que numa cidade desse tamanho, qualquer objeto com o sobrenome de ‘silva’ pode ser cunhada do joão grandão que a entrelaça, e que era até capaz da moça ao meu lado não ser só prima da noiva como também colega de colégio da protagonista de minhas lembranças).


O mundo não é cruel ou pequeno. É só novelesco demais. Penso ao entornar o vinho horroroso deste lugar.


Quando a moça retira a cabeça de meu ombro e me apresenta a dona do rosto com nariz alongado que eu seria capaz de desenhar até com o pé esquerdo, finjo surpresa. Fingimos. Mesmo sabendo coisas demais um do outo. O inconveniente do lado de lá (dela) do front fulmina dizendo: ‘Amor, você não disse que o conhece?’, e como todo mundo neste lugar, entoamos frases amarelas com sorrisos feitos: ‘Sim... Cidade pequena’; ‘É... Cidade pequena’; ‘Essa cidade é um ovo...’. A minha doce companhia me esfaqueia pelas costas ao perguntar sobre quando eles – O Grandão e a dona do nariz que até hoje cato em sósias na rua - irão se casar. Antes que o moço com cara de bobo a minha frente possa responder e também levar algo meu. Digo que meus sapatos estão me matando. ‘Esperem um pouco. Volto já!’.


Não está chovendo como gostaria. E apesar da hora, sigo pela calçada junto de homens de calção e chuteira, moças com câmeras e rapazes carregando violões. Todos brincando numa noite de sábado de algo que não são.

Cid Brasil

domingo, 18 de agosto de 2013

CLASSIFICADOS


(Felice Casorati)



Alguns anúncios extraídos do Jornal ‘A Segunda Crônica’:
 

Trago a pessoa amada de volta. Vivo ou morto. Tratar c/ Tenente Milton. Obs: Não aceito reclamações.

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Alugo casa c/ suíte de atos nababescos; garagem luxuriosa; sala de estar com ecos de risadas e uma cozinha manchada de sangue. Condomínio incluído.

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Sobrinho designer procura tio com empresa para ser usado como desculpa no caso de qualquer profissional com diploma aparecer.

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Problemas de foco? Fale com Douglas, tarólogo especialista em defesa pessoal, banho, tosa e passeio com seu pet. Já viajei para mais de 14 países e necessito voltar para casa.

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Salete decoração de interiores, exteriores e assuntos estrangeiros. Também realizo Harmonização facial em obras de Pablo Picasso. Faça um orçamento com compromisso.

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Compro carro quitado ou financiado que tenha sido palco de histórias amorosas.

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Alugo Status.

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Síndrome da escadaria nunca mais! Venha conhecer a Elevatus, manutenção em elevadores. - Agora com o novíssimo elevador com wi-fi, pois sua briga não pode parar.

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Ensino afeto e confiança: Pagamento adiantado.

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Precisa-se de desculpas sem experiência em orgulho.

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Colégio Minha Luta. Fascista a gente faz em casa – e solta na rua.

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Coroa! Mulherão. Cara de novinha. Mente de Ninfeta. Papo de adolescente. Precinho de alcatra.

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Quer ganhar dinheiro sem sair de casa? Pergunte-me como. Obs: Pagamento antecipado.

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Não leve desaforo para casa, traga para nós, aqui na Só Capangas! Não deixe para amanhã o que se pode resolver com pancadas.

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Troco perdão.

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Vendo perdão.

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Mato família e vou ao cinema. Família de pragas. Luciana dedetização. 

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Salada de Frutas do Belo. Peça já a sua! Frutas selecionadas, tiradas diretamente do pé. Do pé das pessoas no chão da feira.

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Precisa-se de assunto com experiência em casais.

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Julgo a pessoa amada em dois minutos. Tratar: Dona Rosa 501.


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Cid Brasil