sábado, 28 de novembro de 2015

UM RETRATO




(Giorgio de Chirico)

Muita gente, ou apenas duas ou três, perguntam se essas pessoas de quem escrevo existem. Ou se tal situação foi real. A realidade é essa janela, e ela mostra agora um vendedor de frutas que sobe a rua e ao seu lado vai um moço com um violão preso as costas. Sempre que vejo alguém com um violão assim, recordo de uma tia minha lá do Piauí que gosta de apontar esses músicos do acaso e dizer: Lá vai mais um indo brincar de Chico Buarque! Quando eu fazia teatro, a cada nova peça que estreava, fazia questão de telefonar para Teresina e contar tudo sobre o espetáculo para minha Tia – hoje vejo o quão ridículo era informar Tia Filó de minhas aventuras teatrais, ou mesmo avisar do horário, do local ou até da função de meus colegas de cena, estando ela quilômetros e quilômetros de distância – só para ouvir: Hum, então você continua brincando de ser Francisco Cuoco, não é rapaz? Ou: Ótimo, agora temos mesmo um Tarcísio Meira na família; era só o que faltava acontecer para minha cunhada... 

O mau humor de minha família paterna sempre me cativou muito. Assim que ela atendia ao telefone, eu amava perguntar o que ela fazia naquele momento só para ouvir absurdos do tipo:

Estou esquentando uma água para por no ouvido do seu Tio...

Ou

Estava indo riscar uma vela para Satanás... (sua gíria para ir fumar).

O curioso é que quando parei de fazer teatro e de bancar o louco-da-casinha (palavras dela), nossa comunicação se encerrou. Nossas conversas não resistiram a banalidade ou a perguntas sobre familiares perdidos pelo Brasil ou sobre sua saúde, melhor que a minha, por sinal. Acho que no fundo Tia Filó sonhava em me ver nas telenovelas; queria apontar para a TV e dizer para as velhas do bairro: Vocês viram o meu sobrinho ontem? O novo Fagundes? Não esqueço nunca sua fala na última conversa que tivemos, sobre no fundo ser correto que eu brincasse de ser artista; afinal, disse ela, não há artistas, futebolistas, bichas-loucas ou criminosos no braço de nossa família. Sem esses tipos, ela disse, seria insuportável um jantar de natal. E logo depois, ouvi um conselho que me acompanha até hoje. Invente algo para você, meu sobrinho, brinque de outra coisa...

Adoraria telefonar agora para Tia Filó e ouvir suas piadas de velha ranzinza, suas esculhambações contra as noras ou contra deus e o diabo na terra do sol lá do Piauí. Talvez, ao escutar que agora tenho brincado de escrever, ela até me recomendasse fumar meus contos recentes. Escreve-los, como aquele personagem de Thomas de Quincey, em papeis seda e depois recheá-los com tabaco e tragar linha por linha. Ouvi-la dizer que no fundo o importante era brincar. Ou criar, como diz o escritor inglês, pois se algo foi criado, escrito, logo, essas coisas existem. Tia Filó, assim como o Piauí ou a realidade, não existem. Só o que há é esse homem anunciando laranja, manga e maracujá a cinco reais.

Cid Brasil

terça-feira, 13 de outubro de 2015

HOJE COMECEI UM DIÁRIO



(Emiliano Ponzi)





Hoje nada aconteceu – já intuía isso – mas ainda assim preferi abrir um livro qualquer de minha biblioteca antes de sair e desandar o dia sob o signo do acaso. O escolhido foi Kafka e dele avistei a seguinte fala: “O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está esticada no alto, mas logo acima do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que ser trilhada”. Depois tropecei nos cadarços ao me lembrar que tinha muitos compromissos. 

Hoje nada aconteceu: Tropecei, arranhei o carro em outro carro, a namorada não me respondeu, perdi sete reais, não passei desodorante. Os bancos estão em greve. Minha conta encontra-se no limiar entre ser um deserto e um mar de advogados brigando por 34 reais. A beira do cheque especial, sai do banco e entrei num sebo e comprei um livro. Paguei no débito. Um livro de relatos de Enrique Vila-Matas que curiosamente tem Kafka na capa. O livro se chama Filhos Sem Filhos e está em espanhol, fala de seres mesquinhos que perante as grandes desgraças só pensam nos próprios cadarços. Enfim, a história de todos nós. Paguei 32 reais. Fui até um café, li um pouco e grifei com caneta a seguinte frase: “Aqui cheguei sem inimigo algum que não eu mesmo – o que não é pouco”. Depois deu a hora de trabalhar e sai sem pagar o café, me julgando com esse ato ser o último dos artistas de vanguarda. Um rebelde. Um iconoclasta de si mesmo. A execução perfeita da rebeldia de gaveta.

Hoje nada aconteceu, exceto o fato de que no caminho até o trabalho avistei, no centro de Maceió, Cabeleira, um antigo companheiro de colégio que ganha a vida como artista plástico e DJ. Lembrei da frase de Vila-Matas sobre inimigos e ao notar Cabeleira rindo de mim tive ganas verdadeiras de lhe jogar o carro em cima e matá-lo. Além de ser um artista medíocre e cortesão, meu rancor por sua horrenda figura vem desde os tempos da sexta série da Escola O Castelinho. Cabeleira (José Genilson Soares) levava toda semana um daqueles enormes gafanhotos dentro de uma caixinha apenas para ver minhas lágrimas e meu pavor nos recreios. Eu tinha nove anos e cabeleira quatorze. Espero não voltar a vê-lo, caso contrário, terei de voltar a analise. Julgo ver um gafanhoto sobre esse caderno. Lavei sete vezes o rosto.

Hoje nada aconteceu, porém o trânsito fluiu e recuperei o ânimo, depois de imaginar lentas mortes para Cabeleira, cheguei enfim ao trabalho. Cheguei atrasado e o primeiro cliente que atendi no balcão foi o nobre presidente do sindicato dos artistas de Alagoas. Chama-se Vieirinha. Parecia levemente embriagado o Vieirinha e acredito que por isso ele não me reconheceu. Depois lembrei que não sou artista e que não tinha mesmo como ele me reconhecer. Comprou uma caixa de fósforos o Vieirinha. Julguei que poderia entabular uma boa conversa com este homem chamado Vieirinha, a quem conheço dos jornais e dos bares. Pretendia desabafar sobre meu inimigo Cabeleira e seus quadros; sobre o teatro e as artes locais; sobre livros... Mas o Vieirinha do sindicato dos artistas, ao ser indagado sobre as artes preferiu arrotar no meu rosto, pagar por sua caixa de fósforos e sair trombado nas mesas. No estado alcoólico em que estava, se aquele homem acendesse um cigarro, incendiaria a si mesmo. Por sorte, lhe vendi uma caixa vazia.

Hoje nada aconteceu e se tivesse acontecido, gostaria que Rubem Braga tivesse aparecido e me ensinasse a escrever crônicas. A tarde julguei de bom tom começar um diário.


Cid Brasil

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

RÁDIOS DE PROVÍNCIA

(Foundazione Prada)


Hoje nada se passou, exceto que um homem cego, morador da cidade de Sarandi, no Rio Grande do Sul, ganhou um bolo confeitado num sorteio de rádio. Esse homem é meu Tio e se chama Pedro Soares. Disse que estava ouvindo rádio e anunciaram a promoção valendo brindes de um supermercado. Pediu que sua filha ligasse e lhe passasse o telefone. Respondeu algumas perguntas e disse, no ar, o slogan do programa.

Meu Tio escolheu como prêmio um bolo confeitado. Essa tarde foi anunciado como ouvinte premiado. Telefonou-me agora para dizer que aguardava a neta voltar do trabalho para ir ao supermercado pegar seu presente e imagino, posar para as fotos e repetir o slogan do supermercado para alguma futura vinheta que permanecera no ar até o próximo bloco.

Um bolo confeitado. Tio Pedro tem 67 anos e é cego há mais de dezessete. Dezessete anos tendo como horizonte uma tela acinzentada que em nada lhe bloqueia os acessos de risos e encantamento com bobagens como um bolo confeitado.
Lhe perguntei um dia o que sua mente via e ele disse que uma parede cinza, só isso, mas que não era tão feia, o que não era mal para um pedreiro aposentado. Nada de escuridão. Depois, quis saber qual tinha sido a última imagem que ele viu antes da cegueira total. Um par de enfermeiras, contou. Eram bonitas, Tio? Não, respondeu, mas com o tempo foram ficando e imagino que daqui a pouco até sirvam para miss.

Sempre que conversamos, quero saber como vão as moças de branco, se já dão para algum concurso de beleza. Não vão mal, diz, melhores que ontem, melhores que ontem, meu sobrinho.

Não sei, mas fiquei bem contente de saber que as rádios do interior ainda sorteiam coisas bobas como bolos confeitados e que continuam servindo de olhos para um cego sentado na varanda de casa. Voltamos dentro de alguns instantes.

Cid Brasil